Friday, March 23, 2007
Versos de Orgulho
Florbela Espanca
O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.
Porque o meu reino fica além…
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus!
Porque eu sou eu e porque eu sou alguém!
O mundo? O que é o mundo, ó meu Amor?
- O jardim dos meus versos todo em flor…
A seara dos teus beijos, pão bendito…
Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços…
- São os teus barcos dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.
...
Divina Comédia
Antero de Quental
Erguendo os braços para o céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: - “Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,
Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inextinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
Num turbilhão cruel e delirante…
Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?
Porque é que para a dor nos evocastes
Mas os deuses, com a voz inda mais triste,
Dizem: - “ Homens porque é que nos criastes?”
...
A belíssima anarquia
Paulo Brito e Abreu
As saudade de ver e já ter visto
Boninas no jardim duma Poesia
Rosa d`Ouro imortal duma Utopia
Que repousa no Amor, Amor de Cristo;
O Reino de uma Paz, suave e leda
Que põe o meu amigo mais risonho,
Um divino e azul, angélico sonho,
À noite, nas estrelas, pela alameda…
Uma pura visão, um manso Amor,
Uma paz e um calmante, um grão calor,
Uma divina e angélica Poesia,
Essa foi a lindíssima oração
Que me pôde já dar uma paixão,
Essa foi a belíssima ANARQUIA.
...
Da Condição Humana
José Carlos Ary dos Santos
Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.
...
DIES IRAE
Miguel Torga
Apetece cantar, mas ninguém canta
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
Oh! Maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grandes cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!
...
Truca Truca
Natália Correia
Já que o coito – diz Morgado –
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão sexual
petisca e manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração!
– uma vez.
E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.
...
Catilina
Sophia de Mello Breyner Andresen
Eu sou o solitário e nunca minto.
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto.
De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu – coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.
Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.
E o coração batendo no meu pulso
Despedaçou a forma do meu braço
Pra além do nó de angústia mais convulso.
...
Autopsicografia
Fernando Pessoa
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Poemas enviados por Nuno Marçal, Biblioteca Municipal de Proença-A-Nova.
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