Monday, April 30, 2007
As Batatas
As batatas estão em flor
no palmo
de luz secreta.
Ninguém pode tirar
à batata
o direito a ser poeta.
Mário Castrim
Administra bem o teu jardim
Administra bem o teu jardim.
Passam alto os crisântemos.
Os astros
andam tão baixo às vezes
que
se não acordamos
apodrecem nos ramos.
Administra bem o teu jardim.
Pedra
sombra
giestas
gestos
mastros
solo.
Administra bem o teu jardim.
Poemas enviados por Ana C.
Cecília Meireles
O mosquito pernilongo
trança as pernas, faz um M,
depois, treme, treme, treme,
faz um O bastante oblongo,
faz um S. O mosquito sobe e desce.
Com artes que ninguém vê,
faz um Q,
faz um U, e faz um I.
Este mosquito
esquisito
cruza as patas, faz um T.
E aí,
se arredonda e faz outro O,
mais bonito.
Oh!
Já não é analfabeto,
esse insecto,
pois sabe escrever seu nome.
Mas depois vai procurar
alguém que possa picar,
pois escrever cansa,
não é, criança?
E ele está com muita fome.
Enviado por Teodora Gonçalves.
Dedicado a todos os meninos e meninas que estão a aprender a ler e a escrever.
Friday, April 27, 2007
António Osório *
Não é uma coisa só.
São muitas coisas nuas.
Não é o desabar de uma casa.
É percorrer os seus escombros.
Não é aguardar por um filho.
É voltar a sê-lo.
Não é penetrar em ti.
É sair de mim.
Não é pedir-te que faças.
É fazer-te.
Não é dormir lado a lado.
É estar jacente de mãos dadas.
Não é ouvir vento e chuva.
É franquear-lhes a cama.
E relâmpago que pela terra se funde.
*Nasceu em Setúbal, em 1933.
http://www.iplb.pt/pls/diplb/!get_page?pageid=402&tpcontent=FA&idaut=1426036&idobra=&format=NP405&lang=PT
Thursday, April 26, 2007
Ana Luísa Amaral
A minha filha já não parte
tijelas na cozinha.
Nem usa borboletas no cabelo,
nem veste certas roupas de brincar.
E onde vou arranjar agora um verso
sem tijelas partidas devagar?
Está numa idade, a inha filha,
de porcelana quase do avesso,
e os temas que eu lhe ofereço
ou que ela assim me oferece:
tão de um diverso enredo.
A minha filha já não parte tijelas,
nem desmancha brinquedos como dantes.
E onde vou arranjar agora o verso
sem tempos de brinquedo?
Mas de tão luxuosas narrações,
de pequenos papéis feitos de luz,
de descrições brilhantes devagar.
Tão rocas de fiar tão finamente,
as tijelas agora definitivamente
de dinastia Ming, elaborada
em mil delicadezas.
Em lugar de as quebrar,
a minha filha cla outras tijelas,
como eu tento colar
ainda o tema, o instante perdido
da cozinha.
Como os seus desavessos
são como os meus avessos
de poema, em ractura fluida
finalmente.
Como eu tento colar essa tijela
escorregada das mãos
da minha filha.
A ternura da cola a mesma:
sempre.
Tuesday, April 24, 2007

Thursday, April 19, 2007
Monday, April 16, 2007

Dia Mundial do Livro – 23 de Abril
Uma semana antes do Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, instituído pela UNESCO, tem início a campanha LEIA MAIS, VIVA MAIS, da responsabilidade do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas.
No âmbito do Plano Nacional de Leitura – LER + (http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt), e no seguimento do que o IPLB tem vindo a desenvolver, desde há vários anos, através do Programa de Promoção da Leitura, esta campanha chama a atenção para a importância da criação de hábitos de leitura como forma de cidadania plena. Mais informações em (http://www.iplb.pt)
Sunday, April 15, 2007
Hoje eu completei oitenta e cinco anos. O poeta nasceu de treze. Naquela ocasião escrevi uma carta aos meus pais, que moravam na fazenda, contando que eu já decidira o que queria ser no meu futuro. Que eu não queria ser doutor. Nem doutor de curar nem doutor de fazer casa nem doutor de medir terras. Que eu queria era ser fraseador. Meu pai ficou meio vago depois de ler a carta. Minha mãe inclinou a cabeça. Eu queria ser fraseador e não doutor. Então, o meu irmão mais velho perguntou: Mas esse tal de fraseador bota mantimento em casa? Eu não queria ser doutor, eu só queria ser fraseador. Meu irmão insistiu: Mas se fraseador não bota mantimento em casa, nós temos que botar uma enxada na mão desse menino pra ele deixar de variar. A mãe baixou a cabeça um pouco mais. O pai continuou meio vago. Mas não botou enxada.
Memórias Inventadas, A Infância
Obrigada por esta iniciativa, é muito interessante este blog, parabéns.
Amélia Silva
Friday, April 13, 2007
Na despedida da Carla Lopo, que nos vai deixar, com muita pena nossa
Valerio Magrelli *
Há silêncio entre uma página e outra.
A longa extensão até ao bosque
onde a sombra colhida
é roubada ao dia,
onde as noites despontam
separadas e preciosas
como frutos nos ramos.
Neste delírio
luminoso e geográfico
ainda não sei
se devo ser o país que atravesso
ou a viagem que faço.
in Ora serrata retinae, 1980
Tradução: M. C. L.
* Valerio Magrelli nasceu em Roma em 1957. É professor universitário de literatura francesa.
Poema enviado pela Ana, Assun, M.C., Marta, Miguel, Manel, M.J., Isabel, Raquel, Menito, Faneca, João
Thursday, April 12, 2007

Daniel Pennac
Como um romance, ASA, 1993
Direitos inalienáveis do leitor:
1) O direito de não ler.
2) O direito de saltar páginas.
3) O direito de não terminar um livro.
4) O direito de reler.
5) O direito de ler qualquer coisa.
6) O direito de se refugiar nos romances (doença textualmente transmissível).
7) O direito de ler em qualquer lugar.
8) O direito de saltar de livro em livro.
9) O direito de ler em voz alta.
10) O direito de não falar do que se leu.
Com esta lista de direitos, Daniel Pennac reage contra o modo como a leitura era ensinada e imposta nas escolas: "têm de ler este livro porque sim, têm de ler estas 400 páginas em duas semanas..." Pennac recupera a noção de que a leitura deve ser um acto de prazer e reivindica a liberdade que temos para fazermos as nossas escolhas.
Tuesday, April 10, 2007
Passatempo "Linhas & Letras"
Encontra-se a decorrer o passatempo "Linhas & Letras", organizado pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas no âmbito dos objectivos do Plano Nacional de Leitura e inserido na comemoração do Dia Internacional do Livro Infantil.
Tomando como base cinco ilustrações do artista plástico João Vaz de Carvalho, os alunos dos 6 aos 12 anos podem escrever um conto, um poema ou uma banda desenhada. Regulamento disponível em www.iplb.pt.

Bienal Internacional de Ilustração para a Infância
Vai decorrer no Barreiro mais uma edição da Ilustrarte.
O prazo para entrega dos trabalhos é 30 Junho 2007.
Mais informações em www.ilustrarte.web.pt/
Monday, April 09, 2007

V Encontro de Literatura Infanto-Juvenil de Pombal
«Um carreirinho de letrinhas ao encontro da palavra» é o título do encontro promovido pela Biblioteca Municipal de Pombal, a decorrer nos próximos dias 4 e 5 de Maio.
Mais informações em http://biblioteca.cm-pombal.pt/
Tuesday, April 03, 2007
Esquecer Você
Tentei... Juro que tentei esquecer você...
Esquecer nossa estória,
Nossos momentos ...
Mas foi impossível.
Você... infiltrou – se em minha mente...
Impregnou –se em meu sangue...
Insinuou-se em minha alma...
Introduziu-se lenta e profundamente em minha vida
Como esquecer você?
Seria tentar esquecer-me de mim mesma...
Como tirar você do meu pensamento...
Se você é... o meu próprio pensamento?
Tentei lhe esquecer... Juro que tentei!
Tentei arrancar de minha pele, as marcas dos seus sentidos...
Procurei exterminar de minha alma, as últimas ilusões de
Ter você...
Arrisquei a erradicar de minha mente, seus textos... suas palavras...
Aventurei a livrar-me do feitiço que me dementava...
Tudo inútil...
Em meus ouvidos, sua voz... seu sorriso... seu ai ai...
Em minha boca, ainda o sabor da sua...
Em meus olhos, os seus... seu corpo...
Em minhas entranhas... você... todo em mim...
Como esquecer você???
Como tirar você de mim???
Como arrancar as lembranças???
Me ajude eu lhe peço...
Me ajude a esquecer VOCÊ!!!
Mas... não dá para o esquecer... E... sabe por quê?
Porque eu não desejo tirar você de minha memória!
Porque eu não quero afastar ou perder as lembranças!
Porque... se eu não posso, nem devo
Ter a esperança de Ter você...
Quero pelo menos... sofrer! sentir dor!
E cada vez mais lembrar-me
De nossa estória! De nossos momentos! de VOCÊ !!
Eu sou Ana Beatriz Anacleto e queria dedicar este poema ao Rodrigo
A Vida
Firmino Mendes
Fazer da vida um processo de gestos simples:
De manhã, subir às árvores,
esperar a chegada dos pássaros,
beber alguma água do céu, distrair os caçadores,
ouvir o vento mais alto nas copas,
colher uma flor do campo para os olhos amados.
Ao meio-dia, olhar na direcção do sol, correr no campo,
comer frutos, sementes de trigo, velar os cursos de água,
cuidar dos animais feridos.
Ao sol-poente, regar as plantas para o alimento da noite,
preparar alguma terra para as sementeiras,
podar a vinha,
fazer alguns enxertos,
preparar alporques, tocar uma pedra
para sentir a força do universo.
À noite, sentado na terra, olhar o céu,
contar, outra vez, as estrelas,
meditar sobre os milhões de anos-luz que nos religam,
chorar sobre a velocidade da luz,
cantar para as aves nocturnas, chamar os lobos
dormir para ver nos sonhos
outras possibilidades de sobrevivência.
in Um segredo guarda o mundo
Enviado por Amália Silva
Abecedário sem juízo
Luísa Ducla Soares
A é o André, a beber a água com o pé.
B é o Bruno, vai a fugir dum gatuno.
C é a Camila, com um corpinho de gorila.
D é o Daniel, come lenços de papel.
E é a Ester, que nunca usa talher.
F é o Frederico, está sentado no penico.
G é o Gonçalo, já hoje levou um estalo.
H é a Helga, picada por uma melga.
I é a Inês, a dar beijos num chinês.
J é o João, ratos dentro do pão.
L é a Luísa, vai para a rua sem camisa.
M é a Maria, que só dorme todo o dia.
N é o Norberto, que gosta de armar em esperto.
O é o Olegário, caiu dentro do aquário.
P é a Paula, tira bananas da jaula.
Q é o Quim, meteu a mão no pudim.
R é a Raquel, que se besunta com mel.
S é a Sara, com dez borbulhas na cara.
T é o Tiago, a pescar botas no lago.
U é o Urbino, que sofre do intestino.
V é a Verónica, tem uma preguicite crónica.
X é o Xavier, usa roupa de mulher.
Z é a Zulmira, que na aula dança o vira.
In Poemas da Mentira e da Verdade
Enviado por Ana Rita dos Santos Piedade
Monday, April 02, 2007
2 de Abril
Margaret Mahy
Nunca me hei-de esquecer de como aprendi a ler. Quando era menina, as palavras escapuliam-se diante dos meus olhos como pequenos escaravelhos negros cheios de pressa. Mas eu era mais inteligente do que elas. Aprendi a reconhecê-las apesar de tentarem escapar-me velozmente.
Até que, por fim, consegui abrir os livros e entender o que lá estava escrito.
Sozinha, tornei-me capaz de ler contos, histórias engraçadas e poemas.
No entanto tive surpresas. A leitura deu-me poder sobre os contos
e de alguma forma também deu aos contos um certo poder sobre mim.
Nunca lhes pude escapar. Isso faz parte do mistério da leitura.
Uma pessoa abre um livro, acolhe e compreende as palavras e, se a história for boa, ela explode dentro de nós. Aqueles escaravelhos que correm em linha recta de um lado para o outro da página branca convertem-se primeiro em palavras e, logo a seguir, em imagens e acontecimentos mágicos.
Ainda que certas histórias pareçam nada ter que ver com a vida real, ainda que nos conduzam a surpresas de toda a espécie e se distendam em múltiplas possibilidades, para um lado e para o outro, como pastilhas elásticas, no final, as histórias que são boas devolvem-nos a nós mesmos. São feitas de palavras, e todos os seres humanos sonham ter aventuras com as palavras.
Quase todos começamos como ouvintes. Ainda bebés, as nossas mães e os nossos pais brincam connosco, dizem-nos rimas, tocam-nos as mãos («Pico pico maçarico quem te deu tamanho bico…») ou põem-nos a bater palmas («Palminhas, palminhas…»). Os jogos com palavras são ditos em voz alta e, quando somos
crianças, escutamo-los e rimos com eles. Logo a seguir aprendemos a ler os caracteres impressos na página branca e, mesmo quando lemos em silêncio, há uma certa voz que está presente. A quem pertence esta voz?
Pode ser a tua própria voz, a voz do leitor. Mas é mais do que isso. É a voz da história que vem do interior do
próprio leitor.
É claro que existem hoje muitas maneiras de contar uma história. Os filmes e a televisão têm histórias para contar, embora não usem a linguagem da maneira como o fazem os livros. Os escritores que trabalham em guiões de televisão ou de cinema são obrigados a utilizar poucas palavras. «Deixem as imagens contar a história», dizem os especialistas. Muitas vezes vemos televisão na companhia de outras pessoas, mas quando lemos quase sempre estamos sós.
Vivemos numa época em que o mundo está cheio de livros. Mergulhar neles à procura de alguma coisa, lendo-os e relendo-os, faz parte da viagem de cada leitor. A aventura do leitor consiste em descobrir, nessa selva de caracteres impressos, uma história tão vibrante que o transforme como que por magia. Uma história tão apaixonante e misteriosa que mude a sua vida. Creio que cada leitor vive para esse momento em que de súbito o mundo de todos os dias se altera um pouco, abre espaço a uma nova piada, a uma ideia nova, àquela nova possibilidade que é dada a uma determinada verdade de se exprimir pelo poder das palavras. «Sim, isto é mesmo verdade!», exclama aquela voz dentro de nós. «Estou a reconhecer-te!» A leitura é verdadeiramente apaixonante, não acham?
Tradução: José António Gomes
O DIA INTERNACIONAL DO LIVRO INFANTIL É UMA INICIATIVA DO IBBY (INTERNATIONAL BOARD ON BOOKS FOR YOUNG PEOPLE), REALIZADA ANUALMENTE DESDE 1967. O PATROCINADOR DE 2007 É A SECÇÃO NACIONAL DO IBBY DA NOVA ZELÂNDIA. DIFUSÃO EM PORTUGAL: APPLIJ – SECÇÃO PORTUGUESA DO IBBY.
Florbela Espanca
Olhos do meu amor! infantes loiros
que trazem os meus preso, endoidados!
neles deixei, um dia, os meus tesoiros
meus anéis, minhas rendas, meus brocados.
neles ficaram meus palácios moiros,
meus carros de combate, destroçados,
os meus diamantes, todos os meus oiros
que trouxe d'Além-Mundos ignorados!
Olhos do meu amor! fontes... cisternas...
Enigmáticas campas medievais...
jardins de Espanha... catedrais eternas...
Berço vindo do Céu à minha porta...
ó meu leito de núpcias irreais!...
meu sumptuoso túmulo de morte!...
Enviado por Joana Patricia Fonseca Rodrigues -11 anos
Canto Nono
Tonino Guerra
Terá chovido durante cem dias e a água infiltrada
pelas raízes das ervas
chegou à biblioteca banhando as palavras santas
guardadas no convento.
Quando tornou o bom tempo,
Sajat-Novà o frade mais jovem
levou os livros todos por uma escada até ao telhado
e abriu-os ao sol para que o ar quente
enxugasse o papel molhado.
Um mês de boa estação passou
e o frade de joelhos no claustro
esperava dos livros um sinal de vida.
Uma manhã finalmente as páginas começaram
a ondular ligeiras no sopro do vento
parecia que tinha chegado um enxame aos telhados
e ele chorava porque os livros falavam.
Adília Lopes
Seca-se o livro
no alto do ulmeiro
o anacronismo
produziu o surrealismo
mas não é só
uma má tradução
o livro caiu ao mar
foi preciso enxugar o livro
agora o vento abana
as folhas do ulmeiro
e as do livro
(as folhas batem
umas nas outras)
e o livro é um fruto
é um produto
do ulmeiro
acham que um verso
é pouco?
quem não o aproveita
é mouco
Adília Lopes
Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito dos seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever
Enviados por Helena Laranjeiro
Maria Lúcia Carvalhas
Da cartola surge um coelho,
Vou ao outro lado do espelho,
Tenho uma arca de surpresas,
Faço truques com as luzes acesas.
Com as cartas sou um às,
Agora tu! Vê se és capaz...
Joana Sofia Correia Paiva - 12 anos
A lua está lá no céu
Quem é que a vai tocar?
São duas mãos pequeninas
Com as luvas do luar
O sol está lá no céu
Quem é que o vai tocar?
São duas mãos pequeninas
Que não se pode queimar
E as estrelas lá no céu
Quem que as vai tocar?
São duas mãos com anéis
De brilhantes a brilhar
E os pássaros lá no céu
Quem é que os vai tocar?
Pássaros em liberdade
Ninguém os deve buscar
Enviado por Diogo Henrique Ferreira
Florbela Espanca
Mais alto, sim! mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem
O mundo não conhece por alguém!
Ser orgulho, ser águia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!
Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível
Turris Ebúrnea erguida nos epaços,
À rutilante luz dum impossível!
Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!
Enviado por Vanessa Sofia Ferreira Girão - 12 anos
Rainer Maria Rilke
Apesar de o dia já ter passado.... O facto de não ter o
livro comigo justifica o meu atraso...
"Se tudo ao menos uma vez se calasse
Se o casual e o acidental
emudecesse, e o riso vizinho:
se o ruído, que os meus sentidos fazem,
me não estorvasse tanto na vigília -
Então poderia eu num pensamento múltiplo
pensar-te até à beira de ti e possuir-te
(só o espaço de um sorriso),
para dar-te a toda a vida
como um agradecimento."
Enviado por Maria Inês Silva Figueiredo

Pedro, lembrando Inês
Nuno Júdice
Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: "Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios? "Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fundo do mundo que me deste.
Enviado por Fernanda Cunha
Gato que brincas na rua
Fernando Pessoa
Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
Enviado por Eva Fernandes
