Monday, March 19, 2007

Guillaume Apollinaire

S'en est allé l'amante au village voisin
Malgré la pluie
Sans son amant s’en est allée l'amante
Danser avec un autre que lui
Les femmes mentent mentent

Enviado por M. Chandeigne

Camões fala a Petrarca
Ana Luísa Amaral

De ti tardei a tradição e
o tempo

Só não herdei a voz

Essa me é feita
de paragens outras,
de cabos que passei,
mas que não são meus

De ti herdei talvez
artes de amar,
mas numa língua outra:

ofícios mais difíceis
de viver

E depois, eu: aqui
e tu: aí - séculos, modos
longos como mares

Aqui me acho gastando
dias tristes,
outras vezes mais belos,

sabendo que esta vida,
a vida em verso,
maior às vezes
do que a outra vida,

como depois de nós,
muito depois, alguém, que será muitos,
falará

O Breviário do Amor

Enviado por j.n.alçada


R. Tagore

O meu poema
é a resposta da alma ao apelo
do universo


Eugénio de Andrade

Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros
companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.

Poemas enviados por Miguel Peixoto




Manuel Gusmão

Mudas a noite de lugar.
Para o ângulo superior direito da mesa:
um tinteiro de cristal maciço e facetado
com uma leve tampa de estanho – ou de cobre? –
pintada de um amarelo que envelheceu.
Escreves em vão mas meticulosamente.

Reescreves como se fosse necessário.
A noite está gasta. Mudas a noite de lugar.
Mexes os dedos na noite gasta para saberes
se ainda consegues mexer os dedos. Consegues.
Há um prato azul com flores secas como se
fosse a corola que espalha para cima a luz

do candeeiro. Entre as flores há restos de búzios
de um azul muito claro. como os gestos
de uma ternura sobrevivente. como
folhas soltas que contivessem os gráficos
de mil olhares. em vão ou não. isso depende.
Como se fossem os estilhaços da lettera amorosa

que não escreveste nem recebeste mas existe.

Não adormeces. Respiras mal: a noite
solidificou. como a água destecida
do outro corpo. como uma ravina e uma praia
em negro sem sequer o ruído de um mar
qualquer. sólida como a miséria
do desejo. Mudas a noite de lugar:

Agora no sol do pátio a camélia abriu.
levou um ano a desabrochar. Não parece real. Esse é
um dos espantos com o real. é que não se parece.


Enviado pela Ana, Assun e M.C.. Feliz aniversário, Cristina!


Miguel Torga


Poeta, sim, poeta...
É o meu nome.
Um nome de baptismo
Sem padrinhos...
O nome do meu próprio nascimento...
O nome que ouvi sempre nos caminhos
Por onde me levava o sofrimento...

Poeta sem mais nada.
Sem nome apelido.
Um nome temerário,
Que enfrenta, solitário,
A solidão.
Uma estranha mistura
De praga e de gemido à mesma altura.

Poeta, como santo, ou assassino, ou rei.
Condição,
Profissão,
Identidade,
Numa palavra só, velha e sagrada,
Pela mão do destino, sem piedade,
Na minha própria carne tatuada.

Enviado por Maria do Céu Ramos

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