Thursday, June 28, 2007

Rainer Maria Rilke

Mas se tentasses isto: de mãos dadas seres
para mim como no copo de vinho o vinho é vinho.
Se tentasses isto.

Novembro de 1925, in Poemas II, trad. Paulo Quintela, Instituto Alemão da Universidade de Coimbra, 1967


Para a AC e o RP

Tuesday, June 26, 2007

Menino e moço
António Nobre

Tombou da haste a flor da minha infância alada,
Murchou na haste o pudico jasmim:
Voou aos altos Céus a pomba enamorada
Que dantes estendia as asas sobre mim.

Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada,
Num castelo de prata embutido a marfim!

Mas, hoje, as pombas de oiro, aves da minha infância,
Que me enchiam de Lua o coração, outrora,
Partiram e no Céu evolam-se, a distância!

Debalde clamo e choro, erguendo aos Céus meus ais:
Voltam na asa do Vento os ais que a alma chora,
Elas, porém, Senhor! Elas não voltam mais…

In Só, 1898 (2ªedição)

Os Nautas

Pedro Tamen


Para a Maria Gabriel


Quando até sobre o tarde navegavam
a luz que dentro vinha sobrepunha
a lantejoula aguda de outro sol
ao passo opaco, idêntico, cercando
os braços intranquilos, a surpresa
que só de pressentida lhes doía.

Ao frio sal que sob os pés sentiam
e à escuridão mais fundo, ao sonolento
e bruto som da corda e da madeira,
às dores de fome e ao gemido fraco
duma saudade parda, à solidão
sem espelho, à gula insaciada, ao medo

— a tudo combatia uma paixão
neles tão nova, nevoenta outrora,
qual a de ver, de ver de olhos abertos
até sentir no roçagar dos dedos,
a mínima paisagem, mais total
que os montes lerdos, pátrios e trocados:

a crispação da vela, o peixe lento
de súbito surgindo, ignotas flores,
cores purulentas, vasto e escasso espaço
para estrídulos pássaros abertos
e outra vida mor,
e ainda bruma
que não sabem se é deste ou doutro sonho.

in Depois de ver
O Palácio da Ventura
Antero de Quental


Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formusura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!

Thursday, June 21, 2007

Em tempos fui amado
António Ladeira

Em tempos fui amado
por quem hoje me trouxe este presente.

Abrir o pacote e olhar para o papel diz-me coisas leves;
é, definitivamente, meio dia.

Um cheiro a tinta nova e uma fitinha amarela
podem pesar como um guindaste e uma âncora,
de cor muito negra.

in Todas as línguas são estrangeiras, O Contador de Histórias

Wednesday, June 20, 2007

Algumas proposições com pássaros e árvores que o poeta remata com uma referência ao coração
Ruy Belo

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o Outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

in Homem de palavra(s), 1970


Cinco palavras cinco pedras

Ruy Belo

Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
e em parte resume o que penso da vida
passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
e delas vem a música precisa
para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando os deuses eram grandes
eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas

in Homem de palavra(s), 1970

Tuesday, June 19, 2007

Eugénio de Andrade

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

in Coração do Dia

Monday, June 18, 2007

Na biblioteca
Manuel António Pina

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras

diante do poema, que chega sempre
demasiadamente tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.

in Cuidados intensivos

para ouvir, no blog do Andante:
http://conta-meumconto.blogspot.com/

Friday, June 15, 2007

O Céu
Luís Miguel Nava*

Assoam-se-me à alma, quem
como eu traz desfraldado o coração sabe o que querem
dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.

* Viseu, 1957 - Bruxelas, 1995
In "Como alguém disse", Poesia Completa, 1979-1994
Os amigos
José Tolentino de Mendonça *

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

* Nasceu no Machico (Madeira) em 1965

Wednesday, June 13, 2007

Poema de Al Berto, nos 10 anos da sua morte.
Com saudade.

Al Berto *

panos estendidos sobre os animais mortos
névoa
escondendo a paisagem onde caminha o corpo
que esqueceste ontem no limiar da manhã

senta-te na cama - toca nos animais
solta-os e vais ver que a paisagem gravou
sombras nos olhos - fecha-os
para que tudo arda com a intensidade de um astro

dá as mãos e o coração
às feras do crepúsculo - quando o termómetro
marcar 39 e meio e nas pálpebras se abrirem
charcos de treva... mas

por agora
fica sossegado - bebe o leite quente
aconchega as mantas - dorme
com o fio da gadanha enrolado ao pescoço

In Poeira da Lume, 1997

* Coimbra, 11.01.1948 - Lisboa, 13.06.1997

Tuesday, June 12, 2007

Felicidade em Turim
Paul Durcan *

Conhecemo-nos no Valentino em Turim
Descemos a Itália de comboio,
E dormimos juntos.
Não me refiro a sexo.
Refiro-me a dormirmos juntos.
De que a sexualidade faz
E não faz parte.
O dormirmos juntos
É que é para mim sagrado.
O bocejarmos juntos.
Sexo podemos ter com qualquer um
Mas dormir, com quem podemos?

Odeio-te
Porque tendo dormido comigo
Me deixaste.

* Nasceu em Dublin em 1944.
Tradução de Helena Cardoso

Monday, June 11, 2007


Helder Moura Pereira

Do que nunca feito
foi restam as imagens.

Torno à idade
da sugestão.

Estas palavras querem
dizer apenas metade.

Aquele baloiço
nunca mais parava.

Nós presos
nesse banco eterno.

In De novo as sombras e as calmas (Poesia 1976/1990)

Friday, June 08, 2007


Arte de amar
Manuel Bandeira *

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
* Recife, 1886 - Rio de Janeiro, 1968

Tuesday, June 05, 2007

Conversação com um melro
Michael Hamburger *

'Fazes favor, fazes favor, fazes favor'
começa ele, e eu espero o resto
que vem, indistinto e sem ênfase.
'Afasta-te', creio compreender,
ou 'deixa andar',
posso ter ouvido ou não:
as vogais são confusas,
as consoantes faltam.
Oh, o ritmo é livre
depois desse cortês pedido.

Traduzido, o meu assobio de resposta diz:
'Sê mais explícito. A nossa espécie não suporta
coisas incertas, canções com o fim em aberto.
Ser deixado a adivinhar é mais
do que aguentamos muito tempo.

Ri-se? 'Por favor, por favor, por favor'
é a resposta. E então coloratura, e nela estas frases:
'Eu repito, o fim não cito.
São mistérios, mistérios de cantor.
Improviso, o tempo aviso.
Ora subo, e ora piso.
E volito. Não hesito
se o indefinido imito.
E ora fito, chilrozito. Ora saltito.'

Tradução de Vasco Graça Moura
*Nasceu em Berlim em 1924, mas foi para Inglaterra em 1933.

Monday, June 04, 2007

O recreio
Mário de Sá-Carneiro

Na minh'Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar -
Balouço à beira dum poço
Bem difícil de montar...

- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia,
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...

- Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...

Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...

- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...

Paris, Outubro 1915

Friday, June 01, 2007

Tatiana Chtcherbina *

Fora o amor tudo
se compra. Pode-se roubar,
conquistar marrar pedir esmola.
Converter-se ao budismo mesmo sendo baptizado.
Mudar um homem em mulher ou travesti.
Pode-se tornar horrível uma beldade,
tirar a uma dama cinco anos,
embranquecer um negro, fazer preto um homem de Tchukotka,
se for à África passear.
Pode-se nascer de uma proveta, num piscar de olhos
transformar Nova Iorque em pó, voar para Marte
fora o amor
em tudo pode mais a vontade que a força do destino,
o contratenor canta como baixo.
Fora o amor e a morte e, de resto, os talentos,
tudo podemos. Vencer em combate
ou cair sob um golpe inimigo,
mas não se pode dar nem tirar o estranho posto avançado do Amor.

*Nasceu em Moscovo em 1954.
Tradução de António Pescada

Para a Ana e a Assun, que também acreditam no amor.