Tuesday, July 31, 2007










julho

mc

a primeira coisa que fiz
quando acordei naquela manhã escaldante
de fim de julho
quero dizer ontem apenas
foi limpar-te da minha vida

não propriamente vida vida
que essa nunca tivemos os dois
(nem um beijo nem um gesto de ternura
nem sequer uma palavra sobre
amor paixão desejo)

mas limpar-te dizia eu da vida
que construí sozinha deste lado
onde projectei a tua imagem
como num espelho

mas num espelho a realidade é virtual
e tu não passas da imagem
do meu próprio desejo
reflectido na vida que vou construindo
passo a passo

enfiando contas num fio invisível
encaixando peças num puzzle
impossível de completar
porque as peças não estão todas lá

ou seja ontem quis ficar sem ti
dentro de mim
e agora estou outra vez só
mas não faz mal
porque já me habituei
a esta solidão tranquila

Monday, July 30, 2007

Alice Vieira

Amor e outros crimes em vias de perdão

6.

entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida de que não conseguimos
regressar

e uma noita a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios

7.

deito-me à sombra das tuas pernas
e o corpo arde em todos os movimentos
que não ousaste prolongar
na toalha branca da minha pele

deste lado a dor
é completamente minha
e por assim dizer inútil

era capaz de jurar
que nem me viste

in Dois corpos tombando na água, Caminho, 2007

Saturday, July 28, 2007


Venezia


Non so quando tornerò a casa,
alla mia vita misurata.
Non so se ci sarai ad aspettarmi,
oppure se sei già partito verso la tua vita.

I minuti e le ore sono diventandi fissi.
Il tempo non passa qui a Venezia.

Avresti dovuto venire con me,
in questa città dove non si trovano
né muri né barriere,
ma tutto diventa fluido
come l'acqua che ci coinvolge.


Veneza, 19 de Julho.
Luca


Non mi hai chiesto niente.
Non ti ho chiesto nessuna cosa.
Ci siamo ritrovati al Luca
una calda sera d'estate.
Abbiamo mischiato birra e coriandoli.

Mi hai aperto un po' la tua porta.
Io sono entrata,
ma la vita l'ha chiusa subito.
Sono rimasta fuori.
Eppure ho lasciato un pocco di me dentro lì.
Forse una gamba.
Forse il mio cuore.

Roma, 14 de Julho

Il sogno

La vita ha dei sogni
che non si svegliano.
Nel mio sogno preferito
ti ho visto una notte.
Non avrei dovuto chiamare il tuo nome
o guardarti negli occhi.
Adesso non c'è niente da fare.
Mi è venuta la voglia
di rivederti ancora.


Roma, 16 de Julho.

Firenze


Ti ricordi della Piazza della Signoria,
del Duomo, degli Uffizi,
del nostro amore così nuovo?
Eravamo da soli per la prima volta
e già volevamo mischiare
le nostre memorie
con le pietre del Risorgimento.

Sta sera tu non sei qui con me,
ma qualche emozione
che ci abbiamo lasciato 27 anni fa
rimangono ancora quando guardo il David,
Il Ratto delle Sabine
oppure quando cammino sul Ponte Vecchio.


Florença, 18 de Julho. Para o Chico.

Wednesday, July 25, 2007

Canção de embalar
Paulo Teixeira

No teu passo suave e quase alado
deixaste-me com a tua voz que tece
em solidão e madrugadas o meu estar,

tu, que acaso em voo desatado
vais sem medo além da dor
da carne em sangue a deslaçar-se,

dá-me a tua mão para ninar a noite
com palavras ternas e secretas
que encantam o silêncio povoado

por novas dum espaço que em vida
se medita, com suas paisagens
que se alargam no olvido arborizadas,

diz-me que sonho trará de volta
tua alma e corpo intactos
por mais que ardam os fogos na noite,

corram a lua e os astros todos
desfraldados em palidez numa demanda
tua, noite cega com o dia agrilhoado

na cintura, noite em que não vens
com teu passo suave e alado
aninhar no meu o teu corpo,

enseada desenhando-se na penumbra,
molhar com uma palavra os lábios
onde outra dos nossos nomes nascia

(olhar-te nos olhos de um azul
como só há no céu pelas manhãs
claras de querer-te muito),

mais que neve ou a espuma das ondas
a marulhar em nossas bocas,
quando todo tu eras beijo demorado

e a face iluminava-se num convite
à partida para o longe que nunca nos doía,
ambas as mãos no volante pousadas,

porque desamado fui eu em tua dor,
canta para embalares com a tua guitarra
a noite e o sono irreparáveis.

In Autobiografia Cautelar, Gótica, 2001


Para a Ana.

Monday, July 16, 2007

Senza tempo
Giuseppe Mannino *

Perdo
tutte le occasioni
per amare.
Mi distraggo
con i miei pensieri.
Mi avvolgo
nei sentimenti.
Non odo
il profumo dell'amore.
Non ho l'olfatto.
Non colgo
mai
l'attimo giusto.
Sono senza tempo.
Eppure canto
canzoni stonate.
E la voce
non mi manca.

*nasceu em Graniti (Italia) em 1939.


Thursday, July 05, 2007

Estalactetite IV, VI e VIII
Carlos de Oliveira *

Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.

Algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do Outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar.

Caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.

in Micropaisagem
* 1921-1982
Biografia
Miguel Torga *

Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.
Vulcão de exterior
Tão apagado,
Que um pasror
Possa sobre ele apascentar o gado.

Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É ela, prisioneira,
Que, vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira
Numa agressiva fúria se liberta.


In Orfeu Rebelde

* 1907-1995

Tuesday, July 03, 2007

Ausência
Sophia de Mello Breyner Andresen

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Monday, July 02, 2007

Canção
Rainer Maria Rilke

Tu, a quem não digo que acordado
fico à noite a chorar;
tu, cujo ser me faz cansado
como um berço a embalar;
tu, que não me dizes quando velas
por amor de mim;
diz-me: - Se pudéssemos aguentar
sem a acalmar
a pompa deste amor até ao fim?
.............................................
Ora olha os amantes e o que eles sentem:
mal vêm as confissões,
quão breve mentem!
.............................................
Só tu me fazes só. Só tu posso trocar.
Um momento és bem tu, depois é o sussurrar
ou um perfume sem traços.
Ai! a todas eu perdi entre os meus braços!
Só tu em mim renasces, sempre e a toda a hora:
Por nunca te abraçar é que te tenho agora.

Trad. Paulo Quintela

Paris, Dez. 1909, in Poemas II, Instituto Alemão da U. Coimbra, 1967