Wednesday, May 30, 2007

Soneto do Cativo
David Mourão-Ferreira *

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias do
que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

(* 1927-1996)

Tuesday, May 29, 2007

Sá de Miranda*

Ó meus castelos de vento
que em tal cuita me pusestes,
como me vos desfizestes!

Armei castelos erguidos,

esteve a fortuna queda,
e disse:– Gostos perdidos,
como is a dar tão grã queda!
Mas, oh! fraco entendimento!
em que parte vos pusestes
que então me não socorrestes?

Caístes-me tão asinha

caíram as esperanças;
isto não foram mudanças,
mas foram a morte minha.
Castelos sem fundamento,
quanto que me prometestes
quanto que me falecestes!

*Francisco Sá de Miranda nasceu em Coimbra em 1481

Monday, May 28, 2007

Interrogação
Camilo Pessanha*

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.


Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do "Cântico dos Cânticos".

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

*Nasceu em Coimbra em 1867.

Thursday, May 24, 2007

Comentário XI (Hadewijch)
Juan Gelman *

este desejo de solidão contigo / amor
que prende a alma / amor
que alimenta e devora e alarga a alma / asa
de mim a ti / que te leva

de ti para longe de mim / amor que vem e vai
dando dor de ti / pena de ti / doçura
que alagas meus pedaços / unidos
no júbilo de ti / onde cantam

como verões os exílios
de ti / país ou febre / graveto
remexendo tristezas e deleites / amor
como criança que fechasse os olhos

envolta na sua coragem / ou livre
na prisão de ti / belo amor
dando o seu amor para que amor conheça
por amor o amor

*Nasceu em Buenos Aires em 1930.


Tradução colectiva revista por Ana Luísa Amaral.
Sebastião da Gama

Aquilo que me rolou
e embrulhou
e fez correr pelo Mar
e fez gozar
os beijos de uma sereia
não foi a onda,
porque eu estava na praia
assentadinho e calado...
Foi apenas o eco
da voz da onda que vem
e bate, não sei lá bem
se nas funduras das grutas
se nas funduras de mim,
o eco, que me enrolou
e me rolou, embrulhou
(sossegadinho na areia)
e fez beijar, na maresia,
os lábios húmidos frescos
de uma sereia...


Enviado por Andante, Associação Artística

Saturday, May 19, 2007


Sérgio Godinho: espectáculo no Maria Matos até 20 de Maio
Que há-de ser de nós?
Sérgio Godinho


Já viajámos de ilhas em ilhas
já mordemos fruta ao relento
repartindo esperanças e mágoas
por tudo o que é vento

Já ansiámos corpos ausentes
como um rio anseia pela foz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?

Que há-de ser do mais longo beijo
que nos fez trocar de morada
dissipar-se-á como tudo em nada?

Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós

Já avivámos brasas molhadas
no caudal da lágrima vã
e flutuando, a lua nos trouxe
à luz da manhã

Reencontrámos lágrimas e riso
demos tempo ao tempo veloz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós

Que há-de ser da mais longa carta
que se abriu, peito alvoroçado
devolver-se-á: «endereço errado?»

Já enchemos praças e ruas
já invocámos dias mais justos
e as estátuas foram de carne
e de vidro os bustos

Já cantámos tantos presságios
pondo o fogo e a chuva na voz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?

Que há-de ser da longa batalha
que nos fez partir à aventura
que será que foi
quanto é quanto dura

Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós

Para aqueles e aquelas que não sabem o que vai ser deles e delas. MC e AC

Tuesday, May 15, 2007


Feliz só será...
Goethe

Feliz só será
A alma que amar.

'Star alegre
E triste,
Perder-se a pensar,
Desejar
E recear
Suspensa em penar,
Saltar de prazer,
De aflição morrer -
Feliz só será
A alma que amar.

(Tradução Paulo Quintela)

Monday, May 14, 2007

"Para compreender por que o céu é azul em qualquer parte, não é preciso dar a volta ao mundo." Goethe

Para a Maria Cabral, no dia do seu aniversário.

Saturday, May 12, 2007


A Carlos Drummond de Andrade
João Cabral de Melo Neto*

Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo no canteiro.

Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.

Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.

Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.

Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.

*Nasceu em Recife em 1920.
Rosalía de Castro*

Nasín cando as prantas nasen
no mes des froles nasín,
nunha alborada mainiña,
nunha alborada de abril.
Por eso me chaman Rosa,
mais a do triste sorrir,
con espiñas para todos,
sin ningunha para ti.
Desque te quixen, ingrato,
todo acabóu para min
que eras ti para min todo,
miña groria e meu vivir.
De qué, pois, te queixas, Mauro?
De qué, pois te queixas, di,
cando sabes que morrera
por te contemplar felís?
Duro cravo me encravaches
con ese teu maldesir,
con este teu pedir tolo
que non sei qué quer de min,
pois dinche canto dar puden,
avariciosa de ti,
o meu corasón che mando
cunha chave para o abrir.

In Cantares Gallegos
* Nasceu em Santiago de Compostela em 1837.
Aos amigos do IPLB que guardarei sempre comigo.

Amigo*


Procura-se um amigo.
Não precisa ser homem - basta ser humano, ter sensibilidade e ter coração.
Precisa de saber falar, de saber calar e, sobretudo, de saber ouvir.
Que goste de poesia, do alvorecer, de pássaros, do sol, da lua e do murmúrio das brisas.
Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir a falta de não ter esse grande amor.
Deve guardar segredo sem sacrificar-se. Não é imprescindível que seja em primeira mão, nem mesmo em segunda; pode já ter sido enganado (todos os amigos são enganados).
Tem de ter ressonâncias humanas; seu principal objectivo deve o de ser amigo; deve sentir a tristeza das pessoas e compreender o imenso vazio dos solitários.
Procura-se um amigo que tenha os mesmos gostos e que saiba conversar de coisas simples. Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque se tem um amigo.
Precisa-se de um amigo que, a sorrir, nos bata no ombro e creia em nós. Precisa-se de um amigo para se ter a certeza que ainda se vive...


*Autoria incerta (Vinicius de Morais? Carlos Drummond de Andrade?...)

Enviado por Fernanda Vences
Na praia
Ruy Belo

Aqui vai um poema dedicado ao verão e a todas as banhistas

Raça de marinheiros que outra coisa vos chamar
senhoras que com tanta dignidade
à hora que o calor mais apertar
coroadas de graça e majestade
entrais pelas águas dentro e fazeis chichi no mar?

Enviado pela Associação Andante

Thursday, May 10, 2007

Nuno Júdice

Quero dizer-te uma coisa simples:
a tua ausência dói-me.
Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma;
mas que não deixa, por isso,
de deixar alguns sinais -
um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos.
Como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto.
São estas as formas do amor,
podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples
também podem ser complicadas,
quando nos damos conta da diferença entre
o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória;
e a realidade aproxima-me de ti,
agora que os dias correm mais depressa,
e as palavras ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de mim -
e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.

Maria do Rosário Pedreira

O meu mundo tem estado à tua espera; mas
não há flores nas jarras, nem velas sobre a mesa,
nem retratos escondidos no fundo das gavetas. Sei

que um poema se escreveria entre nós dois; mas
não comprei o vinho, não mudei os lençóis,
não perfumei o decote do vestido.

Se ouço falar de ti, comove-me o teu nome
(mas nem pensar em suspirá-lo ao teu ouvido);
se me dizem que vens, o corpo é uma fogueira –
estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro
com a violência de um incêndio; mas parto
antes de saber como seria. Não me perguntes

porque se mata o sol na lâmina dos dias
e o meu mundo continua à tua espera:
houve sempre coisas de esguelha nas paisagens
e amores imperfeitos – Deus tem as mãos grandes.


In O canto do vento nos ciprestes, Gótica

Wednesday, May 09, 2007

Maria Valupi *

Procuro a tua mão sem contornos,
Mas quente;

Os teus olhos na noite desmanchados,
Mas profundos;

A tua voz por tantos lados repartida,
Mas pura;

O teu aroma repetido em tanta flor e tanta boca,
Mas suave;

A tua boca perturbada por tanta agonia tanto riso,
Mas vermelha;

O teu sorriso desenhado em tanta face,
Mas inefável;

Os teus passos pisando a terra toda,
Mas leves;

O teu coração batendo em cada corpo,
Mas livre...

In Desprevenidas paisagens, 1959

* Maria Dulce Lupi Cohen Osório de Castro (1905-1977.

Tuesday, May 08, 2007



Gastão Cruz

A boca ouve o soluço das palavras

a terra expõe a fala

e provoca essa queda de palavras

nos lábios.

In Teoria da Fala, 1972


Cresce o desejo, falta o sofrimento
Gregório de Matos *

Cresce o desejo, falta o sofrimento,
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.

Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.

Quem pretende alcançar, espera, e cala,
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.

Pois se aquele que espera sempre alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda esperança.

In Obras Completas de Gregório de Matos
* Nasceu na Bahia no século XVII.
Para a Fernanda V., no dia do seu aniversário

A uma ausência
António Barbosa Bacelar *

Sinto-me sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo, que me alenta,
O mal, que me consome, me sustenta,
O bem, que me entretém, me dá cuidado.

Ando sem me mover, falo calado,
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta.

Choro no mesmo ponto, em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do que menos se espera estou mais certo;

Mas se de confiado desconfio,
É porque entre os receios da mudança
Ando perdido em mim, como em deserto.

In Fénix Renascida (1ª ed. 1716-1728)
* Poeta barroco, século XVII


Enviado pelos ex-colegas

Thursday, May 03, 2007

Eduardo White *

Eu amo-te devagar, como profunda e iluminadamente amo este destino, porque cedo me deram a poesia, essa voz cândida, funda, pela qual empobreço escrevendo versos. Ninguém agora me perdoa tamanha loucura e dela é tarde para que me liberte e é por isso que conto estrelas e falo sozinho pelas ruas e penso bastante. Sou um faquir todos os dias sobre as lâminas perfurantes dessa realidade e os meus pés andam, no entanto, admiravelmente sobre elas e a carne arde pelas suas chagas fundas, sofre embatente contra os ossos, contra os urros, contra a vontade esgotante da poesia. Digo-te no plural e canto-te com a mesma ternura de quem deita um filho para que sonhe talvez, ou aprenda, e estou do avesso nos versos dos meus poetas preferidos, na subversão com que falam e são. Olhos meus, vertiginosos e preciosíssimos, aqueles, os teus, com panos nas asas e luzes e que por dentro me passam tilintantes. Minha taça secreta, meu cio e minha sedução que pangaios tens nos lábios, com colares e especiarias, que possam levar-me, inenarrável, aos mares que emprestas a estas mãos.

In Os materiais do amor, Caminho

*Nasceu em Quelimane, Moçambique, em 1963.
Mãos
Àlex Susanna *

Estas carícias que trocamos
de vez em quando
mesmo antes de adormecer,
enquanto lá fora resmoneia o vento
e cá dentro tudo repousa do que é,
talvez digam mais do nosso amor
que todo o querer com que nos abraçamos
levados pelas rajadas do desejo:
um mesmo vento poderia erguer-se
em planícies mais suaves,
enquanto estas mãos,
já cautas e endurecidas,
apenas sabem passear
onde existe amor.


Tradução colectiva (Mateus, Out. 1995)

* Nasceu em Barcelona em 1957.


José Eduardo Agualusa
vence INDEPENDENT FOREIGN FICTION PRIZE

O escritor angolano acaba de ganhar o XII Prémio de Ficção Estrangeira para a melhor obra traduzida para a língua inglesa no ano anterior, com The Book of Chameleons (O Vendedor de Passados), Arcadia Books. A tradução é de Daniel Hahn.