Friday, March 20, 2009

Vasco Graça Moura
no obscuro desejo

no obscuro desejo,
no incerto silêncio,
nos vagares repetidos,
na súbita canção

que nasce como a sombra
do dia agonizante,
quando empalidece
o exterior das coisas,

e quando não se sabe
se por dentro adormecem
ou vacilam, e quando
se prefere não chegar

a sabê-lo, a não ser,
pressentindo-as, ainda
um momento, na aresta
indizível do lusco-fusco.

in Antologia dos Sessenta Anos, ASA, 2002
Pedro Tamen
Natércia

Se tudo fosse assim tão pilotado
por um ser zelador, poderosíssimo,
saltarias do nada, e a meu lado
gerarias poemas no quentíssimo
roçar da pena sobre a pena ferida
e, tal como o leitor e a condolência,
alma minha gentil da minha vida,
ganharias o mar da inexistência.

In Analogia e dedos, 2006