Friday, March 23, 2007

Eco
Fernando Pinto do Amaral

Vagas são as promessas e ao longe,
muito longe, uma estrela.

Cruel foi sempre o seu fulgor:
sonâmbulas cidades, ruas íngremes,
passos que dei sem onde.

Era esse o meu reino, e era talvez essa
a voz da própria lua.
Aí ficou gravada a minha sede.
Aí deixei que o fogo me beijasse
pela primeira vez.

Agora tenho as mãos vazias,
regresso e sei que nada me pertence -
- nenhum gesto do céu ou da terra.
Apenas o rumor de breves sombras
e um nome já incerto que por mágoa
não consigo esquecer.

Às cegas
António Franco Alexandre

Já a luz se apagou do chão do mundo,
deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.

Duende

Enviado por Sandra Carvalho



Agonos
Gonçalo Alvarez

Ser ego do vazio por complexão do que não sou.

Errante em caminhos de só para mim.
Placebamente morrendo.
Profetizando inexistências tão cheias do nada.
E sem sentido neologo palavras para dizer o que não é dito.
Não é.
De nada vale a pena ao poeta,
a lira ao trovador,
porquanto sejamos todos a musa de um cego.

Enviados por Gonçalo Peixoto
Carlos de Oliveira

Aceito a ordem
Das coisas, a geometria
Imposta do quarto?
Os objectos no
Seu lugar de sempre,
A distância exacta
Da cadeira à mesa,
Do meiple à janela?
O sono do tapete?
O universo do diário
Do quarto alugado,
As molduras que
Cercam, resguardam
Naturezas mortas,
Paisagens imóveis?
Aceito a minha vida?
Ou mexo no candeeiro,
Desvio-o alguns centímetros
Na mesa, altero
As relações das coisas,
Afinal tão frágeis
Que o simples desvio
Dum objecto pode
Romper o equilíbrio?
Pego no telefone
E grito ao primeiro
Desconhecido: ouves-me?
Ou deixo tudo
Tal como está,
Medido, quieto
No rigor do quarto,
E eu hesitante
Entre o soalho e o tecto?
Desloco o cinzeiro
Sabendo que posso
Matar mandarins,
Provocar cataclismos,
Fracturas, amores,
Eclipses, sonhos,
Com a ponta de um dedo?
Ou apago a lâmpada
Eléctrica e entro
No mesmo torpor
Que as flores do tapete,
A fruta dos quadros,
O frio, o bolor,
No chão, nas paredes,
O poema na mesa,
A mesa no espaço
Do quarto comprado
Mês a mês? Confundo
O aluguer e o tempo,
Deixo-me ser
Em cada milímetro,
Em cada segundo,
Do quarto, da vida,
O outro objecto
Chamado inquilino?
Ou desencadeio
A insurreição
Mudando de sítio
O meiple, a cadeira,
Mudando-me a mim?

O Aprendiz de Feiticeiro

(Ao amigo Manuel Gusmão, para que não fique sem pergunta)
enviado por José Alvim
Fernando Pessoa

Ai que prazer
Não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura

O rio corre,
bem ou mal
Sem edição original.

E a brisa essa.
De tão naturalmente matinal.
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa que está indistinta
A distinção entre coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma
Esperar por D. Sebastião.
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças.
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
é Jesus Cristo.
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca.

Enviado por Lurdes Machado


É urgente o amor
Eugénio de Andrade

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Enviado por Catarina Beleza e por Teresa Castro
Praia
Sophia de Mello Breyner Andresen


Os pinheiros gemem quando passa o vento
O sol bate no chão e as pedras ardem.
Longe caminham os deuses fantásticos do mar
Brancos de sal e brilhantes como peixes.
Pássaros selvagens de repente,
Atirados contra a luz como pedradas,
Sobem e morrem no céu verticalmente
E o seu corpo é tomado nos espaços.
As ondas marram quebrando contra aluz
A sua fronte ornada de colunas.
E uma antiquíssima nostalgia de ser mastro
Baloiça nos pinheiros.

Enviado por Graça Silva: - Para os meus alunos.
Alberto Caeiro/Fernando Pessoa

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. O que for, quando for, é que será o que é.


António Gedeão

As árvores crescem sós. E a sós florescem.
Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
a crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a só
se entretanto dar flores.

Poemas Escolhidos

Enviados por Maria Sousa
O Livro
Manuel António Pina

E quando chegares à dura
pedra de mármore não digas:"Água,água!",
porque se encontraste o que procuravas
perdeste-o e não começou ainda a tua procura;
e se tiveres sede, insensato, bebe as tuas palavras
pois é tudo o que tens: literatura,
nem sequer mistério, nem sequer sentido,
apenas uma coisa hipócrita e escura, o livro.

Não tenhas contra ele o coração endurecido,
aquilo que podes saber está noutro sítio.
O que o livro diz é não dito,
como uma paisagem entrando pela janela de um quarto vazio.

Os Livros, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003

Enviado por Isabel de Sousa

Versos de Orgulho
Florbela Espanca

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu reino fica além…
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus!
Porque eu sou eu e porque eu sou alguém!

O mundo? O que é o mundo, ó meu Amor?
- O jardim dos meus versos todo em flor…
A seara dos teus beijos, pão bendito…

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços…
- São os teus barcos dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.

...
Divina Comédia
Antero de Quental

Erguendo os braços para o céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: - “Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,

Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inextinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
Num turbilhão cruel e delirante…

Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes
Mas os deuses, com a voz inda mais triste,
Dizem: - “ Homens porque é que nos criastes?”

...
A belíssima anarquia
Paulo Brito e Abreu

As saudade de ver e já ter visto
Boninas no jardim duma Poesia
Rosa d`Ouro imortal duma Utopia
Que repousa no Amor, Amor de Cristo;

O Reino de uma Paz, suave e leda
Que põe o meu amigo mais risonho,
Um divino e azul, angélico sonho,
À noite, nas estrelas, pela alameda…

Uma pura visão, um manso Amor,
Uma paz e um calmante, um grão calor,
Uma divina e angélica Poesia,

Essa foi a lindíssima oração
Que me pôde já dar uma paixão,
Essa foi a belíssima ANARQUIA.


...
Da Condição Humana
José Carlos Ary dos Santos

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.

...
DIES IRAE
Miguel Torga

Apetece cantar, mas ninguém canta
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! Maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grandes cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

...
Truca Truca
Natália Correia

Já que o coito – diz Morgado –
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;

e cada vez que o varão sexual
petisca e manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.

Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração!
– uma vez.

E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

...
Catilina
Sophia de Mello Breyner Andresen

Eu sou o solitário e nunca minto.
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto.

De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu – coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.

Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.

E o coração batendo no meu pulso
Despedaçou a forma do meu braço
Pra além do nó de angústia mais convulso.

...
Autopsicografia
Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.


Poemas enviados por Nuno Marçal, Biblioteca Municipal de Proença-A-Nova.
1.

Primeiro foram os dedos
que travaram conhecimento.
Depois os olhos pousaram-me
na mão e levaram-na a percorrer
a curva da cintura. E a sua boca
procurou a minha boca
sem sobressaltos e deixou-a depois
para percorrer o meu corpo.

É assim a descoberta do poeta,
apesar de tudo se passar na sua cabeça,
dando origem a mais um poema.


obrigada M.C.
ana

Wednesday, March 21, 2007

Dia Mundial da Poesia
21 de Março

O Dia Mundial da Poesia foi instituído na 30ª Conferência Geral da UNESCO em 1999. A poesia restitui a magia das palavras e abre um espaço de reflexão e diálogo sobre o mundo actual, destaca a Unesco na sua mensagem para assinalar este dia.
A 21 de Março, veja qual é a programação da sua biblioteca municipal e junte-se a ela. Vá, por exemplo, à BiblioFesta de Oeiras (programação disponível em http://oeiras-a-ler.blogspot.com) ou a Matosinhos (Na Biblioteca Municipal, às 21h30, decorre o espectáculo multimédia sobre Al Berto e Fernando Pessoa "Wordsong". No Parque do "Soneto Ecológico", rua da Seara, 15.00 horas, assista a "Da Natureza da Palavra", com a presença de Ana Luísa Amaral, Rosa Alice Branco, Casimiro de Brito, José-Alberto Marques, Manuel Portela e Fernando Aguiar). Na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, a partir das 10h00, há programação variada. Às 21h30, ouça os poetas Maria do Rosário Pedreira, Pedro Mexia, José Luís Tavares, Pedro Sena-Lino, Fernando Pinto do Amaral, Ana Marques Gastão e Eduardo Pitta. Na Biblioteca Municipal de Castro Verde, a Associação Andante apresenta, às 21h30, o espectáculo "À volta da língua". A Casa da América Latina apresenta, às 21h00, "21 Poetas", com leituras de Pablo Neruda, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Luis Borges, Octavio Paz, entre outros, na Av. 24 de Julho 118 B, em Lisboa.

Monday, March 19, 2007

Guillaume Apollinaire

S'en est allé l'amante au village voisin
Malgré la pluie
Sans son amant s’en est allée l'amante
Danser avec un autre que lui
Les femmes mentent mentent

Enviado por M. Chandeigne

Camões fala a Petrarca
Ana Luísa Amaral

De ti tardei a tradição e
o tempo

Só não herdei a voz

Essa me é feita
de paragens outras,
de cabos que passei,
mas que não são meus

De ti herdei talvez
artes de amar,
mas numa língua outra:

ofícios mais difíceis
de viver

E depois, eu: aqui
e tu: aí - séculos, modos
longos como mares

Aqui me acho gastando
dias tristes,
outras vezes mais belos,

sabendo que esta vida,
a vida em verso,
maior às vezes
do que a outra vida,

como depois de nós,
muito depois, alguém, que será muitos,
falará

O Breviário do Amor

Enviado por j.n.alçada


R. Tagore

O meu poema
é a resposta da alma ao apelo
do universo


Eugénio de Andrade

Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros
companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.

Poemas enviados por Miguel Peixoto




Manuel Gusmão

Mudas a noite de lugar.
Para o ângulo superior direito da mesa:
um tinteiro de cristal maciço e facetado
com uma leve tampa de estanho – ou de cobre? –
pintada de um amarelo que envelheceu.
Escreves em vão mas meticulosamente.

Reescreves como se fosse necessário.
A noite está gasta. Mudas a noite de lugar.
Mexes os dedos na noite gasta para saberes
se ainda consegues mexer os dedos. Consegues.
Há um prato azul com flores secas como se
fosse a corola que espalha para cima a luz

do candeeiro. Entre as flores há restos de búzios
de um azul muito claro. como os gestos
de uma ternura sobrevivente. como
folhas soltas que contivessem os gráficos
de mil olhares. em vão ou não. isso depende.
Como se fossem os estilhaços da lettera amorosa

que não escreveste nem recebeste mas existe.

Não adormeces. Respiras mal: a noite
solidificou. como a água destecida
do outro corpo. como uma ravina e uma praia
em negro sem sequer o ruído de um mar
qualquer. sólida como a miséria
do desejo. Mudas a noite de lugar:

Agora no sol do pátio a camélia abriu.
levou um ano a desabrochar. Não parece real. Esse é
um dos espantos com o real. é que não se parece.


Enviado pela Ana, Assun e M.C.. Feliz aniversário, Cristina!


Miguel Torga


Poeta, sim, poeta...
É o meu nome.
Um nome de baptismo
Sem padrinhos...
O nome do meu próprio nascimento...
O nome que ouvi sempre nos caminhos
Por onde me levava o sofrimento...

Poeta sem mais nada.
Sem nome apelido.
Um nome temerário,
Que enfrenta, solitário,
A solidão.
Uma estranha mistura
De praga e de gemido à mesma altura.

Poeta, como santo, ou assassino, ou rei.
Condição,
Profissão,
Identidade,
Numa palavra só, velha e sagrada,
Pela mão do destino, sem piedade,
Na minha própria carne tatuada.

Enviado por Maria do Céu Ramos

Federico García Lorca
Miguel Torga

Garcia Lorca, irmão:
Sou eu, mais uma vez...
Venho negar à humana condição
A humana pequenez
Da ingratidão.
Venho e virei enquanto houver poesia.
Povo e sonho na Ibéria.
Venho e virei à tua romaria
Oferecer-te a miséria
Duma oração lusíada e sombria.
Venho, talefe branco da Nevada,
Filho novo de Espanha!
Venho, e não digas nada;
Deixa um pobre poeta da montanha
Trazer torgas à rosa de Granada!
Indomável cigano
Dos caminhos do tempo e da ventura,
Sensual e profano,
O teu génio floresce cada ano...
Venho ver-te crescer da sepultura!
Bruxo das trevas onde alguém te quis,
Nelas arde a paixão do que escreveste!
Sete palmos de terra, e nenhum diz
Que secou a raiz,
Que partiste ou morreste!
Uma luz que é o oceano da verdade
Abre-se onde os teus versos vão abrindo...
A eternidade,
Na pureza da sua claridade,
Sobre o teu nome, universal, caindo...
E o peregrino vem.
Reza devotamente,
Põe no altar o que tem,
E regressa mais livre e mais contente...
Assim faço, também!

Enviado por Andante Associação Artística


AMAR!
Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indeferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida,
É preciso cantá-la assim florida
Que se Deus nos deu voz, foi p'ra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada,
Que seja a minha noite de alvorada!
Que me saiba perder... pra me encontrar!...

Enviado por Joana Pinto



Um poema
Miguel Torga

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...

Diário XIII
Blog Brasileiro

O Galeno Amorim, responsável pelo início do Plano Nacional de Leitura do Brasil, na altura chamado "Fome de Livro", tem um blog à volta da leitura.
Consulte www.blogdogaleno.com.br
Que bom, amigo
Milton Nascimento

Que bom, amigo
Poder saber outra vez que estás comigo
Dizer com certeza outra vez a palavra amigo
Se bem que isso nunca deixou de ser
Que bom, amigo
Poder dizer o teu nome a toda hora
A toda gente
Sentir que tu sabes
Que estou pro que der contigo
Se bem que isso nunca deixou de ser
Que bom, amigo
Saber que na minha porta
A qualquer hora
Uma daquelas pessoas que a gente espera
Que chega trazendo a vida
Será você
Sem preocupação

Poema enviado por fernanda, para a m.c.
À despedida de uma colega

Defenestração
Martin Steiner *

Levando consigo a roupa de cama
Beethoven precipita-se com a sua Nona
da janela aberta

Para um ou dois passantes
na rua
esta manhã vai ser um poema

(Tradução João Barrento)

* Nasceu em 1939 em Zurique, onde reside.
Calar-se
Jesús Munárriz*

Calar-se é mais prudente,
mais seguro, mais cómodo, mais prático,
calar-se é mais astuto,
mais rentável,
mais útil,
calar-se não dá problemas,
calar-se evita sarilhos,
calar-se só traz vantagem,
calar-se impede que nos entrem moscas
pela boca dentro, calar-se próprio é de sábios,
está-se muito bem
calado.

Porque quem cala
outorga
licença, impunidade,
perdão, facilidades
e via livre
e pela boca morre o peixe e sempre
se há-de sentir o que se diz e nunca
dizer o que se sente
se se quer triunfar
em sociedade
e receber migalhas
do grande bolo
do mundo.

(Tradução: Fernanda Abreu)

* Nasceu em San Sebastian em 1940. Vive em Madrid desde 1957.
Caminhamos
Yves Namur *

Caminhamos
E caminhamos numa solidão de areia,

Onde nada foi dito ainda das coisas que atravessamos
E das coisas que nos atravessam
Sem que o saibamos,

Onde a neve é a neve,
Onde a neve cobre toda a planura
E torna ainda mais espessas as nossas incertezas.

Caminhamos
Caminhamos desde sempre.

E não percebemos nada de nada.

(Tradução Nuno Júdice)

* Nascido em Namur (Bélgica) em 1952.

Poema enviado por m.c., dedicado à Ana, à Assun e à Fernanda

Thursday, March 15, 2007

O Amor – A Poesia
Andrée Chedid*

Como dizer o amor sem o acostar à nossa própria pele;
sem o mascarar debaixo das nossas intempéries?

Como nomear a poesia sem a atar às nossas sedes, aos
nossos sofrimentos, aos nossos sonhos; sem a encerrar na
bastilha das nossas ideias?

Como lhes dar ao mesmo tempo realidade e liberdade,
arrebatamento e sensualidade?
Como não exaltar de mais nem reduzir de mais?

* * *

Resta-nos – para existir melhor – conhecermos os
prazeres, a emoção, as provas que eles nos oferecem.

Resta-nos – para viver melhor – reconhecermos que
ambos nos distanciarão sempre, sem nos trair nunca.

(Tradução Luís Filipe Castro Mendes)

*Nascida no Cairo, vive em Paris desde 1946.

Wednesday, March 14, 2007

Os Amigos
José Tolentino de Mendonça

Esses estranhos que nós amamos e nos amam
Olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça e da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

Mas a amizade só existe se:

ODE
Ricardo Reis


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes,
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


Enviado por Luísa Fernandes
Lá no Oriente

Lá no Oriente
Eu vi o lindo pôr-do-sol.
Interminável é o meu rol
De adjectivos para o descrever.

Parece que vai a correr,
Primeiro, lá no ar,
Depois, mais a meio
Por fim, se vai esvaziar.

Naqueles castelos desertos
Haviam soldados inertes
A guardar aquela rainha
Que já dizia um fidalgo,
Não era tua era minha.


Poema escrito pela Tatiana Rodrigues aluna da Escola de Ribamar
Aqueduto

Aqueduto que
Levas águas
Que limpas lágrimas
De muitas magoas
Tuas águas lavadas
Por deus foram sagradas
E por mim rezadas
Tuas águas são desejadas
Levas a água
Aos canteiros,
Apagas fogos
Aos bombeiros
Limpas as mãos aos padeiros
E ajudas os pasteleiros

Levas as águas a todo o lado
E nunca deixas secar um lago

Obrigado aqueduto.
Que fazes o teu percurso
Silencioso e mudo

Poema escrito pelo Hermínio Figueiredo, aluno do 6ºB da escola de Ribamar

A Ana Luísa, também da escola de Ribamar, diz-nos que gosta muito do António Torrado e que queria que ele visitasse a escola dela. Perguntámos-lhe se conhece um poema do escritor. Respondeu que não.
Aconselhamos-te, então, a leitura do livro de António Torrado À esquina da rima buzina, publicado pela Caminho. E vamos mandar-te um livro dele para a morada da tua escola.


Wednesday, March 07, 2007

A Raquel Vicente, aluna do 6º ano da escola de Ribamar, Lourinhã, foi a primeira a responder ao blog. Disse-nos que gostava dos livros da Mafalda Moutinho e enviou-nos poemas de Camões, Almeida Garrett, Florbela Espanca, Pessoa, Sophia. Aqui fica um deles:

Retrato de uma princesa desconhecida
Sophia de Mello Breyner Andresen


Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino

Thursday, March 01, 2007


Cesário Verde
Eu e Ela

Cobertos de folhagem, na verdura
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço
O meu braço apertando-te a cintura.

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados,
Na sombra de uns arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança,

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão p´ra além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distracção,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiros,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou pagãos, vida à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavalheiro de Flaubas
Egito Gonçalves
No Supermercado

No seu aniversário
ela abriu uma lata de sidra
e comemorou a solidão
tornando a bebida um ponto de partida
para um poema:
um presente que oferecia a si mesma.
O alimento tem muito a ver
com a poesia. No supermercado
havia hoje uma prateleira
de garrafas de sidra
e isso levou-me a pensar
naquela história antiga. Decidi
que o estômago também se encontra no poema
enquanto avançava com o carrinho
pelo meio da multidão
olhando de soslaio as pernas das mulheres
e de frente um salmão inteiro
que parecia acabado de sair da água.
Comprei-o para assar no forno,
distraindo-me assim de um labor
mais intelectual - afinal
a hora do meu próprio poema tinha passado
e os pensamentos insistiam em tropeçar
nas pernas das mulheres,
satisfeitos com a sua própria incoerência.

de E no Entanto Move-se