Friday, October 12, 2007
Súplica
Miguel Torga
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
Miguel Torga
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
Tuesday, September 25, 2007
A hora do cansaço
Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade
As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nós cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.
Friday, September 07, 2007
Wednesday, September 05, 2007

Setembro
MC
chegaste num dia de setembro
e já não eras tu
quero dizer tu como te imaginei durante os dias
em que não nos vimos
quero dizer tu como te li nas poucas
mensagens que trocámos e a que agora chamam sms
esperei por ti em vão nos meus sonos de alguns dias
de agosto nos livros que li à tua espera
mesmo sabendo que tu não virias
mas onde procurava o teu cheiro nas folhas de papel
esse cheiro a ti que me deixaste na memória
mas nunca no meu corpo
hoje passaste por aqui brevemente fugazmente
como quem passa ao de leve pela vida
como passaste pela minha vida nos últimos meses
e já não sei se te posso ter mais tempo
neste espaço onde já não me reconheço
e a que poderia chamar vulgarmente coração
se o coração fosse mais do que um simples músculo
MC
chegaste num dia de setembro
e já não eras tu
quero dizer tu como te imaginei durante os dias
em que não nos vimos
quero dizer tu como te li nas poucas
mensagens que trocámos e a que agora chamam sms
esperei por ti em vão nos meus sonos de alguns dias
de agosto nos livros que li à tua espera
mesmo sabendo que tu não virias
mas onde procurava o teu cheiro nas folhas de papel
esse cheiro a ti que me deixaste na memória
mas nunca no meu corpo
hoje passaste por aqui brevemente fugazmente
como quem passa ao de leve pela vida
como passaste pela minha vida nos últimos meses
e já não sei se te posso ter mais tempo
neste espaço onde já não me reconheço
e a que poderia chamar vulgarmente coração
se o coração fosse mais do que um simples músculo
Soletrar o dia
Rosa Alice Branco
Tenho tudo por dizer e gasto palavras
para lá chegar. Não sei se me afasto
ou se chego perto. Se alguma vez rocei
a pele do essencial. E pergunto sempre
para quê estas linhas que me teimam.
O passado não é o que está feito,
mas o que palavra alguma fará de novo.
Por isso leio sempre no futuro, mas não sei
para que lado do tempo escrevo. E se soubesse
que arrasto as letras como um caranguejo
diria que só tenho esta mão de palavras.
Soletro os dias em cada coisa que me olha
quando me sinto a vê-la. É tudo.
E não há desculpas para o que faço.
in Soletrar o dia, 2002
Rosa Alice Branco
Tenho tudo por dizer e gasto palavras
para lá chegar. Não sei se me afasto
ou se chego perto. Se alguma vez rocei
a pele do essencial. E pergunto sempre
para quê estas linhas que me teimam.
O passado não é o que está feito,
mas o que palavra alguma fará de novo.
Por isso leio sempre no futuro, mas não sei
para que lado do tempo escrevo. E se soubesse
que arrasto as letras como um caranguejo
diria que só tenho esta mão de palavras.
Soletro os dias em cada coisa que me olha
quando me sinto a vê-la. É tudo.
E não há desculpas para o que faço.
in Soletrar o dia, 2002
Tuesday, August 28, 2007
Como a onda
João Maia
Como a onda a um toque de vento,
Principia um poema,
Lá longe,
No mar largo da vida.
Junta as coisas perdidas
À força que o levanta:
- Vozes, acenos, olhares,
As frases sem motivo,
Leves espumas.
Cresce cantando,
Cresce reunindo e caminhando
À Síntese eleita
E morre como a onda, ao encontrar
Outra onda mais pura e mais perfeita.
Écloga Impossível, 1960
A todos aqueles que, na DGLB, tiveram a amabilidade de fazer parte de uma onda muito especial da minha vida.
Teodora Gonçalves
João Maia
Como a onda a um toque de vento,
Principia um poema,
Lá longe,
No mar largo da vida.
Junta as coisas perdidas
À força que o levanta:
- Vozes, acenos, olhares,
As frases sem motivo,
Leves espumas.
Cresce cantando,
Cresce reunindo e caminhando
À Síntese eleita
E morre como a onda, ao encontrar
Outra onda mais pura e mais perfeita.
Écloga Impossível, 1960
A todos aqueles que, na DGLB, tiveram a amabilidade de fazer parte de uma onda muito especial da minha vida.
Teodora Gonçalves
Tuesday, July 31, 2007

julho
mc
a primeira coisa que fiz
quando acordei naquela manhã escaldante
de fim de julho
quero dizer ontem apenas
foi limpar-te da minha vida
não propriamente vida vida
que essa nunca tivemos os dois
(nem um beijo nem um gesto de ternura
nem sequer uma palavra sobre
amor paixão desejo)
mas limpar-te dizia eu da vida
que construí sozinha deste lado
onde projectei a tua imagem
como num espelho
mas num espelho a realidade é virtual
e tu não passas da imagem
do meu próprio desejo
reflectido na vida que vou construindo
passo a passo
enfiando contas num fio invisível
encaixando peças num puzzle
impossível de completar
porque as peças não estão todas lá
ou seja ontem quis ficar sem ti
dentro de mim
e agora estou outra vez só
mas não faz mal
porque já me habituei
a esta solidão tranquila
a primeira coisa que fiz
quando acordei naquela manhã escaldante
de fim de julho
quero dizer ontem apenas
foi limpar-te da minha vida
não propriamente vida vida
que essa nunca tivemos os dois
(nem um beijo nem um gesto de ternura
nem sequer uma palavra sobre
amor paixão desejo)
mas limpar-te dizia eu da vida
que construí sozinha deste lado
onde projectei a tua imagem
como num espelho
mas num espelho a realidade é virtual
e tu não passas da imagem
do meu próprio desejo
reflectido na vida que vou construindo
passo a passo
enfiando contas num fio invisível
encaixando peças num puzzle
impossível de completar
porque as peças não estão todas lá
ou seja ontem quis ficar sem ti
dentro de mim
e agora estou outra vez só
mas não faz mal
porque já me habituei
a esta solidão tranquila
Monday, July 30, 2007
Alice Vieira
Amor e outros crimes em vias de perdão
6.
entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida de que não conseguimos
regressar
e uma noita a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios
7.
deito-me à sombra das tuas pernas
e o corpo arde em todos os movimentos
que não ousaste prolongar
na toalha branca da minha pele
deste lado a dor
é completamente minha
e por assim dizer inútil
era capaz de jurar
que nem me viste
in Dois corpos tombando na água, Caminho, 2007
Amor e outros crimes em vias de perdão
6.
entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida de que não conseguimos
regressar
e uma noita a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios
7.
deito-me à sombra das tuas pernas
e o corpo arde em todos os movimentos
que não ousaste prolongar
na toalha branca da minha pele
deste lado a dor
é completamente minha
e por assim dizer inútil
era capaz de jurar
que nem me viste
in Dois corpos tombando na água, Caminho, 2007
Saturday, July 28, 2007
Venezia
Non so quando tornerò a casa,
alla mia vita misurata.
Non so se ci sarai ad aspettarmi,
oppure se sei già partito verso la tua vita.
I minuti e le ore sono diventandi fissi.
Il tempo non passa qui a Venezia.
Avresti dovuto venire con me,
in questa città dove non si trovano
né muri né barriere,
ma tutto diventa fluido
come l'acqua che ci coinvolge.
Veneza, 19 de Julho.
Non so quando tornerò a casa,
alla mia vita misurata.
Non so se ci sarai ad aspettarmi,
oppure se sei già partito verso la tua vita.
I minuti e le ore sono diventandi fissi.
Il tempo non passa qui a Venezia.
Avresti dovuto venire con me,
in questa città dove non si trovano
né muri né barriere,
ma tutto diventa fluido
come l'acqua che ci coinvolge.
Veneza, 19 de Julho.
Luca
Non mi hai chiesto niente.
Non ti ho chiesto nessuna cosa.
Ci siamo ritrovati al Luca
una calda sera d'estate.
Abbiamo mischiato birra e coriandoli.
Mi hai aperto un po' la tua porta.
Io sono entrata,
ma la vita l'ha chiusa subito.
Sono rimasta fuori.
Eppure ho lasciato un pocco di me dentro lì.
Forse una gamba.
Forse il mio cuore.
Roma, 14 de Julho
Il sogno
La vita ha dei sogni
che non si svegliano.
Nel mio sogno preferito
ti ho visto una notte.
Non avrei dovuto chiamare il tuo nome
o guardarti negli occhi.
Adesso non c'è niente da fare.
Mi è venuta la voglia
di rivederti ancora.
Roma, 16 de Julho.
Non mi hai chiesto niente.
Non ti ho chiesto nessuna cosa.
Ci siamo ritrovati al Luca
una calda sera d'estate.
Abbiamo mischiato birra e coriandoli.
Mi hai aperto un po' la tua porta.
Io sono entrata,
ma la vita l'ha chiusa subito.
Sono rimasta fuori.
Eppure ho lasciato un pocco di me dentro lì.
Forse una gamba.
Forse il mio cuore.
Roma, 14 de Julho
Il sogno
La vita ha dei sogni
che non si svegliano.
Nel mio sogno preferito
ti ho visto una notte.
Non avrei dovuto chiamare il tuo nome
o guardarti negli occhi.
Adesso non c'è niente da fare.
Mi è venuta la voglia
di rivederti ancora.
Roma, 16 de Julho.
Firenze
Ti ricordi della Piazza della Signoria,
del Duomo, degli Uffizi,
del nostro amore così nuovo?
Eravamo da soli per la prima volta
e già volevamo mischiare
le nostre memorie
con le pietre del Risorgimento.
Sta sera tu non sei qui con me,
ma qualche emozione
che ci abbiamo lasciato 27 anni fa
rimangono ancora quando guardo il David,
Il Ratto delle Sabine
oppure quando cammino sul Ponte Vecchio.
Florença, 18 de Julho. Para o Chico.
Ti ricordi della Piazza della Signoria,
del Duomo, degli Uffizi,
del nostro amore così nuovo?
Eravamo da soli per la prima volta
e già volevamo mischiare
le nostre memorie
con le pietre del Risorgimento.
Sta sera tu non sei qui con me,
ma qualche emozione
che ci abbiamo lasciato 27 anni fa
rimangono ancora quando guardo il David,
Il Ratto delle Sabine
oppure quando cammino sul Ponte Vecchio.
Florença, 18 de Julho. Para o Chico.
Wednesday, July 25, 2007
Canção de embalar
Paulo Teixeira
No teu passo suave e quase alado
deixaste-me com a tua voz que tece
em solidão e madrugadas o meu estar,
tu, que acaso em voo desatado
vais sem medo além da dor
da carne em sangue a deslaçar-se,
dá-me a tua mão para ninar a noite
com palavras ternas e secretas
que encantam o silêncio povoado
por novas dum espaço que em vida
se medita, com suas paisagens
que se alargam no olvido arborizadas,
diz-me que sonho trará de volta
tua alma e corpo intactos
por mais que ardam os fogos na noite,
corram a lua e os astros todos
desfraldados em palidez numa demanda
tua, noite cega com o dia agrilhoado
na cintura, noite em que não vens
com teu passo suave e alado
aninhar no meu o teu corpo,
enseada desenhando-se na penumbra,
molhar com uma palavra os lábios
onde outra dos nossos nomes nascia
(olhar-te nos olhos de um azul
como só há no céu pelas manhãs
claras de querer-te muito),
mais que neve ou a espuma das ondas
a marulhar em nossas bocas,
quando todo tu eras beijo demorado
e a face iluminava-se num convite
à partida para o longe que nunca nos doía,
ambas as mãos no volante pousadas,
porque desamado fui eu em tua dor,
canta para embalares com a tua guitarra
a noite e o sono irreparáveis.
In Autobiografia Cautelar, Gótica, 2001
Paulo Teixeira
No teu passo suave e quase alado
deixaste-me com a tua voz que tece
em solidão e madrugadas o meu estar,
tu, que acaso em voo desatado
vais sem medo além da dor
da carne em sangue a deslaçar-se,
dá-me a tua mão para ninar a noite
com palavras ternas e secretas
que encantam o silêncio povoado
por novas dum espaço que em vida
se medita, com suas paisagens
que se alargam no olvido arborizadas,
diz-me que sonho trará de volta
tua alma e corpo intactos
por mais que ardam os fogos na noite,
corram a lua e os astros todos
desfraldados em palidez numa demanda
tua, noite cega com o dia agrilhoado
na cintura, noite em que não vens
com teu passo suave e alado
aninhar no meu o teu corpo,
enseada desenhando-se na penumbra,
molhar com uma palavra os lábios
onde outra dos nossos nomes nascia
(olhar-te nos olhos de um azul
como só há no céu pelas manhãs
claras de querer-te muito),
mais que neve ou a espuma das ondas
a marulhar em nossas bocas,
quando todo tu eras beijo demorado
e a face iluminava-se num convite
à partida para o longe que nunca nos doía,
ambas as mãos no volante pousadas,
porque desamado fui eu em tua dor,
canta para embalares com a tua guitarra
a noite e o sono irreparáveis.
In Autobiografia Cautelar, Gótica, 2001
Para a Ana.
Monday, July 16, 2007
Thursday, July 05, 2007
Estalactetite IV, VI e VIII
Carlos de Oliveira *
Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.
Algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do Outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar.
Caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.
in Micropaisagem
* 1921-1982
Carlos de Oliveira *
Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.
Algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do Outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar.
Caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.
in Micropaisagem
* 1921-1982
Biografia
Miguel Torga *
Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.
Vulcão de exterior
Tão apagado,
Que um pasror
Possa sobre ele apascentar o gado.
Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É ela, prisioneira,
Que, vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira
Numa agressiva fúria se liberta.
Miguel Torga *
Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.
Vulcão de exterior
Tão apagado,
Que um pasror
Possa sobre ele apascentar o gado.
Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É ela, prisioneira,
Que, vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira
Numa agressiva fúria se liberta.
In Orfeu Rebelde
* 1907-1995
Tuesday, July 03, 2007
Monday, July 02, 2007
Canção
Rainer Maria Rilke
Tu, a quem não digo que acordado
fico à noite a chorar;
tu, cujo ser me faz cansado
como um berço a embalar;
tu, que não me dizes quando velas
por amor de mim;
diz-me: - Se pudéssemos aguentar
sem a acalmar
a pompa deste amor até ao fim?
.............................................
Ora olha os amantes e o que eles sentem:
mal vêm as confissões,
quão breve mentem!
.............................................
Só tu me fazes só. Só tu posso trocar.
Um momento és bem tu, depois é o sussurrar
ou um perfume sem traços.
Ai! a todas eu perdi entre os meus braços!
Só tu em mim renasces, sempre e a toda a hora:
Por nunca te abraçar é que te tenho agora.
Trad. Paulo Quintela
Paris, Dez. 1909, in Poemas II, Instituto Alemão da U. Coimbra, 1967
Rainer Maria Rilke
Tu, a quem não digo que acordado
fico à noite a chorar;
tu, cujo ser me faz cansado
como um berço a embalar;
tu, que não me dizes quando velas
por amor de mim;
diz-me: - Se pudéssemos aguentar
sem a acalmar
a pompa deste amor até ao fim?
.............................................
Ora olha os amantes e o que eles sentem:
mal vêm as confissões,
quão breve mentem!
.............................................
Só tu me fazes só. Só tu posso trocar.
Um momento és bem tu, depois é o sussurrar
ou um perfume sem traços.
Ai! a todas eu perdi entre os meus braços!
Só tu em mim renasces, sempre e a toda a hora:
Por nunca te abraçar é que te tenho agora.
Trad. Paulo Quintela
Paris, Dez. 1909, in Poemas II, Instituto Alemão da U. Coimbra, 1967
Thursday, June 28, 2007
Tuesday, June 26, 2007
Menino e moço
António Nobre
Tombou da haste a flor da minha infância alada,
Murchou na haste o pudico jasmim:
Voou aos altos Céus a pomba enamorada
Que dantes estendia as asas sobre mim.
Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada,
Num castelo de prata embutido a marfim!
Mas, hoje, as pombas de oiro, aves da minha infância,
Que me enchiam de Lua o coração, outrora,
Partiram e no Céu evolam-se, a distância!
Debalde clamo e choro, erguendo aos Céus meus ais:
Voltam na asa do Vento os ais que a alma chora,
Elas, porém, Senhor! Elas não voltam mais…
In Só, 1898 (2ªedição)
António Nobre
Tombou da haste a flor da minha infância alada,
Murchou na haste o pudico jasmim:
Voou aos altos Céus a pomba enamorada
Que dantes estendia as asas sobre mim.
Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada,
Num castelo de prata embutido a marfim!
Mas, hoje, as pombas de oiro, aves da minha infância,
Que me enchiam de Lua o coração, outrora,
Partiram e no Céu evolam-se, a distância!
Debalde clamo e choro, erguendo aos Céus meus ais:
Voltam na asa do Vento os ais que a alma chora,
Elas, porém, Senhor! Elas não voltam mais…
In Só, 1898 (2ªedição)

Os Nautas
Pedro Tamen
Para a Maria Gabriel
Quando até sobre o tarde navegavam
a luz que dentro vinha sobrepunha
a lantejoula aguda de outro sol
ao passo opaco, idêntico, cercando
os braços intranquilos, a surpresa
que só de pressentida lhes doía.
Ao frio sal que sob os pés sentiam
e à escuridão mais fundo, ao sonolento
e bruto som da corda e da madeira,
às dores de fome e ao gemido fraco
duma saudade parda, à solidão
sem espelho, à gula insaciada, ao medo
— a tudo combatia uma paixão
neles tão nova, nevoenta outrora,
qual a de ver, de ver de olhos abertos
até sentir no roçagar dos dedos,
a mínima paisagem, mais total
que os montes lerdos, pátrios e trocados:
a crispação da vela, o peixe lento
de súbito surgindo, ignotas flores,
cores purulentas, vasto e escasso espaço
para estrídulos pássaros abertos
e outra vida mor,
e ainda bruma
que não sabem se é deste ou doutro sonho.
in Depois de ver
O Palácio da Ventura
Antero de Quental
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formusura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!
Antero de Quental
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formusura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!
Thursday, June 21, 2007
Em tempos fui amado
António Ladeira
Em tempos fui amado
por quem hoje me trouxe este presente.
Abrir o pacote e olhar para o papel diz-me coisas leves;
é, definitivamente, meio dia.
Um cheiro a tinta nova e uma fitinha amarela
podem pesar como um guindaste e uma âncora,
de cor muito negra.
in Todas as línguas são estrangeiras, O Contador de Histórias
António Ladeira
Em tempos fui amado
por quem hoje me trouxe este presente.
Abrir o pacote e olhar para o papel diz-me coisas leves;
é, definitivamente, meio dia.
Um cheiro a tinta nova e uma fitinha amarela
podem pesar como um guindaste e uma âncora,
de cor muito negra.
in Todas as línguas são estrangeiras, O Contador de Histórias
Wednesday, June 20, 2007
Algumas proposições com pássaros e árvores que o poeta remata com uma referência ao coração
Ruy Belo
Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o Outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração
in Homem de palavra(s), 1970
Cinco palavras cinco pedras
Ruy Belo
Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
e em parte resume o que penso da vida
passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
e delas vem a música precisa
para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando os deuses eram grandes
eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas
in Homem de palavra(s), 1970
Ruy Belo
Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o Outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração
in Homem de palavra(s), 1970
Cinco palavras cinco pedras
Ruy Belo
Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
e em parte resume o que penso da vida
passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
e delas vem a música precisa
para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando os deuses eram grandes
eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas
in Homem de palavra(s), 1970
Tuesday, June 19, 2007
Eugénio de Andrade
Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
in Coração do Dia
Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
in Coração do Dia
Monday, June 18, 2007
Na biblioteca
Manuel António Pina
O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre
demasiadamente tarde,
quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,
em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,
as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.
Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.
in Cuidados intensivos
para ouvir, no blog do Andante:
http://conta-meumconto.blogspot.com/
Manuel António Pina
O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre
demasiadamente tarde,
quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,
em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,
as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.
Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.
in Cuidados intensivos
para ouvir, no blog do Andante:
http://conta-meumconto.blogspot.com/
Friday, June 15, 2007
Os amigos
José Tolentino de Mendonça *
Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura
Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis
Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor
* Nasceu no Machico (Madeira) em 1965
José Tolentino de Mendonça *
Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura
Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis
Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor
* Nasceu no Machico (Madeira) em 1965
Wednesday, June 13, 2007
Poema de Al Berto, nos 10 anos da sua morte.
Com saudade.
Al Berto *
panos estendidos sobre os animais mortos
névoa
escondendo a paisagem onde caminha o corpo
que esqueceste ontem no limiar da manhã
senta-te na cama - toca nos animais
solta-os e vais ver que a paisagem gravou
sombras nos olhos - fecha-os
para que tudo arda com a intensidade de um astro
dá as mãos e o coração
às feras do crepúsculo - quando o termómetro
marcar 39 e meio e nas pálpebras se abrirem
charcos de treva... mas
por agora
fica sossegado - bebe o leite quente
aconchega as mantas - dorme
com o fio da gadanha enrolado ao pescoço
In Poeira da Lume, 1997
* Coimbra, 11.01.1948 - Lisboa, 13.06.1997
Com saudade.
Al Berto *
panos estendidos sobre os animais mortos
névoa
escondendo a paisagem onde caminha o corpo
que esqueceste ontem no limiar da manhã
senta-te na cama - toca nos animais
solta-os e vais ver que a paisagem gravou
sombras nos olhos - fecha-os
para que tudo arda com a intensidade de um astro
dá as mãos e o coração
às feras do crepúsculo - quando o termómetro
marcar 39 e meio e nas pálpebras se abrirem
charcos de treva... mas
por agora
fica sossegado - bebe o leite quente
aconchega as mantas - dorme
com o fio da gadanha enrolado ao pescoço
In Poeira da Lume, 1997
* Coimbra, 11.01.1948 - Lisboa, 13.06.1997
Tuesday, June 12, 2007
Felicidade em Turim
Paul Durcan *
Conhecemo-nos no Valentino em Turim
Descemos a Itália de comboio,
E dormimos juntos.
Não me refiro a sexo.
Refiro-me a dormirmos juntos.
De que a sexualidade faz
E não faz parte.
O dormirmos juntos
É que é para mim sagrado.
O bocejarmos juntos.
Sexo podemos ter com qualquer um
Mas dormir, com quem podemos?
Odeio-te
Porque tendo dormido comigo
Me deixaste.
* Nasceu em Dublin em 1944.
Tradução de Helena Cardoso
Paul Durcan *
Conhecemo-nos no Valentino em Turim
Descemos a Itália de comboio,
E dormimos juntos.
Não me refiro a sexo.
Refiro-me a dormirmos juntos.
De que a sexualidade faz
E não faz parte.
O dormirmos juntos
É que é para mim sagrado.
O bocejarmos juntos.
Sexo podemos ter com qualquer um
Mas dormir, com quem podemos?
Odeio-te
Porque tendo dormido comigo
Me deixaste.
* Nasceu em Dublin em 1944.
Tradução de Helena Cardoso
Monday, June 11, 2007
Friday, June 08, 2007

Arte de amar
Manuel Bandeira *
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Manuel Bandeira *
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
* Recife, 1886 - Rio de Janeiro, 1968
Tuesday, June 05, 2007
Conversação com um melro
Michael Hamburger *
'Fazes favor, fazes favor, fazes favor'
começa ele, e eu espero o resto
que vem, indistinto e sem ênfase.
'Afasta-te', creio compreender,
ou 'deixa andar',
posso ter ouvido ou não:
as vogais são confusas,
as consoantes faltam.
Oh, o ritmo é livre
depois desse cortês pedido.
Traduzido, o meu assobio de resposta diz:
'Sê mais explícito. A nossa espécie não suporta
coisas incertas, canções com o fim em aberto.
Ser deixado a adivinhar é mais
do que aguentamos muito tempo.
Ri-se? 'Por favor, por favor, por favor'
é a resposta. E então coloratura, e nela estas frases:
'Eu repito, o fim não cito.
São mistérios, mistérios de cantor.
Improviso, o tempo aviso.
Ora subo, e ora piso.
E volito. Não hesito
se o indefinido imito.
E ora fito, chilrozito. Ora saltito.'
Tradução de Vasco Graça Moura
*Nasceu em Berlim em 1924, mas foi para Inglaterra em 1933.
Michael Hamburger *
'Fazes favor, fazes favor, fazes favor'
começa ele, e eu espero o resto
que vem, indistinto e sem ênfase.
'Afasta-te', creio compreender,
ou 'deixa andar',
posso ter ouvido ou não:
as vogais são confusas,
as consoantes faltam.
Oh, o ritmo é livre
depois desse cortês pedido.
Traduzido, o meu assobio de resposta diz:
'Sê mais explícito. A nossa espécie não suporta
coisas incertas, canções com o fim em aberto.
Ser deixado a adivinhar é mais
do que aguentamos muito tempo.
Ri-se? 'Por favor, por favor, por favor'
é a resposta. E então coloratura, e nela estas frases:
'Eu repito, o fim não cito.
São mistérios, mistérios de cantor.
Improviso, o tempo aviso.
Ora subo, e ora piso.
E volito. Não hesito
se o indefinido imito.
E ora fito, chilrozito. Ora saltito.'
Tradução de Vasco Graça Moura
*Nasceu em Berlim em 1924, mas foi para Inglaterra em 1933.
Monday, June 04, 2007
O recreio
Mário de Sá-Carneiro
Na minh'Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar -
Balouço à beira dum poço
Bem difícil de montar...
- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...
Se a corda se parte um dia,
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...
- Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...
Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...
- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...
Paris, Outubro 1915
Mário de Sá-Carneiro
Na minh'Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar -
Balouço à beira dum poço
Bem difícil de montar...
- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...
Se a corda se parte um dia,
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...
- Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...
Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...
- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...
Paris, Outubro 1915
Friday, June 01, 2007
Tatiana Chtcherbina *
Fora o amor tudo
se compra. Pode-se roubar,
conquistar marrar pedir esmola.
Converter-se ao budismo mesmo sendo baptizado.
Mudar um homem em mulher ou travesti.
Pode-se tornar horrível uma beldade,
tirar a uma dama cinco anos,
embranquecer um negro, fazer preto um homem de Tchukotka,
se for à África passear.
Pode-se nascer de uma proveta, num piscar de olhos
transformar Nova Iorque em pó, voar para Marte
fora o amor
em tudo pode mais a vontade que a força do destino,
o contratenor canta como baixo.
Fora o amor e a morte e, de resto, os talentos,
tudo podemos. Vencer em combate
ou cair sob um golpe inimigo,
mas não se pode dar nem tirar o estranho posto avançado do Amor.
*Nasceu em Moscovo em 1954.
Tradução de António Pescada
Para a Ana e a Assun, que também acreditam no amor.
Fora o amor tudo
se compra. Pode-se roubar,
conquistar marrar pedir esmola.
Converter-se ao budismo mesmo sendo baptizado.
Mudar um homem em mulher ou travesti.
Pode-se tornar horrível uma beldade,
tirar a uma dama cinco anos,
embranquecer um negro, fazer preto um homem de Tchukotka,
se for à África passear.
Pode-se nascer de uma proveta, num piscar de olhos
transformar Nova Iorque em pó, voar para Marte
fora o amor
em tudo pode mais a vontade que a força do destino,
o contratenor canta como baixo.
Fora o amor e a morte e, de resto, os talentos,
tudo podemos. Vencer em combate
ou cair sob um golpe inimigo,
mas não se pode dar nem tirar o estranho posto avançado do Amor.
*Nasceu em Moscovo em 1954.
Tradução de António Pescada
Para a Ana e a Assun, que também acreditam no amor.
Wednesday, May 30, 2007
Soneto do Cativo
David Mourão-Ferreira *
Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;
o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias do
que os outros dirão ou não dirão;
se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;
não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!
(* 1927-1996)
David Mourão-Ferreira *
Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;
o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias do
que os outros dirão ou não dirão;
se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;
não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!
(* 1927-1996)
Tuesday, May 29, 2007
Sá de Miranda*
Ó meus castelos de vento
que em tal cuita me pusestes,
como me vos desfizestes!
Armei castelos erguidos,
esteve a fortuna queda,
e disse:– Gostos perdidos,
como is a dar tão grã queda!
Mas, oh! fraco entendimento!
em que parte vos pusestes
que então me não socorrestes?
Caístes-me tão asinha
caíram as esperanças;
isto não foram mudanças,
mas foram a morte minha.
Castelos sem fundamento,
quanto que me prometestes
quanto que me falecestes!
*Francisco Sá de Miranda nasceu em Coimbra em 1481
Ó meus castelos de vento
que em tal cuita me pusestes,
como me vos desfizestes!
Armei castelos erguidos,
esteve a fortuna queda,
e disse:– Gostos perdidos,
como is a dar tão grã queda!
Mas, oh! fraco entendimento!
em que parte vos pusestes
que então me não socorrestes?
Caístes-me tão asinha
caíram as esperanças;
isto não foram mudanças,
mas foram a morte minha.
Castelos sem fundamento,
quanto que me prometestes
quanto que me falecestes!
*Francisco Sá de Miranda nasceu em Coimbra em 1481
Monday, May 28, 2007
Interrogação
Camilo Pessanha*
Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do "Cântico dos Cânticos".
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.
*Nasceu em Coimbra em 1867.
Camilo Pessanha*
Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do "Cântico dos Cânticos".
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.
*Nasceu em Coimbra em 1867.
Thursday, May 24, 2007
Comentário XI (Hadewijch)
Juan Gelman *
este desejo de solidão contigo / amor
que prende a alma / amor
que alimenta e devora e alarga a alma / asa
de mim a ti / que te leva
de ti para longe de mim / amor que vem e vai
dando dor de ti / pena de ti / doçura
que alagas meus pedaços / unidos
no júbilo de ti / onde cantam
como verões os exílios
de ti / país ou febre / graveto
remexendo tristezas e deleites / amor
como criança que fechasse os olhos
envolta na sua coragem / ou livre
na prisão de ti / belo amor
dando o seu amor para que amor conheça
por amor o amor
*Nasceu em Buenos Aires em 1930.
Tradução colectiva revista por Ana Luísa Amaral.
Juan Gelman *
este desejo de solidão contigo / amor
que prende a alma / amor
que alimenta e devora e alarga a alma / asa
de mim a ti / que te leva
de ti para longe de mim / amor que vem e vai
dando dor de ti / pena de ti / doçura
que alagas meus pedaços / unidos
no júbilo de ti / onde cantam
como verões os exílios
de ti / país ou febre / graveto
remexendo tristezas e deleites / amor
como criança que fechasse os olhos
envolta na sua coragem / ou livre
na prisão de ti / belo amor
dando o seu amor para que amor conheça
por amor o amor
*Nasceu em Buenos Aires em 1930.
Tradução colectiva revista por Ana Luísa Amaral.
Sebastião da Gama
Aquilo que me rolou
e embrulhou
e fez correr pelo Mar
e fez gozar
os beijos de uma sereia
não foi a onda,
porque eu estava na praia
assentadinho e calado...
Foi apenas o eco
da voz da onda que vem
e bate, não sei lá bem
se nas funduras das grutas
se nas funduras de mim,
o eco, que me enrolou
e me rolou, embrulhou
(sossegadinho na areia)
e fez beijar, na maresia,
os lábios húmidos frescos
de uma sereia...
Enviado por Andante, Associação Artística
Aquilo que me rolou
e embrulhou
e fez correr pelo Mar
e fez gozar
os beijos de uma sereia
não foi a onda,
porque eu estava na praia
assentadinho e calado...
Foi apenas o eco
da voz da onda que vem
e bate, não sei lá bem
se nas funduras das grutas
se nas funduras de mim,
o eco, que me enrolou
e me rolou, embrulhou
(sossegadinho na areia)
e fez beijar, na maresia,
os lábios húmidos frescos
de uma sereia...
Enviado por Andante, Associação Artística
Saturday, May 19, 2007

Que há-de ser de nós?
Sérgio Godinho
Já viajámos de ilhas em ilhas
já mordemos fruta ao relento
repartindo esperanças e mágoas
por tudo o que é vento
Já ansiámos corpos ausentes
como um rio anseia pela foz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?
Que há-de ser do mais longo beijo
que nos fez trocar de morada
dissipar-se-á como tudo em nada?
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós
Já avivámos brasas molhadas
no caudal da lágrima vã
e flutuando, a lua nos trouxe
à luz da manhã
Reencontrámos lágrimas e riso
demos tempo ao tempo veloz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós
Que há-de ser da mais longa carta
que se abriu, peito alvoroçado
devolver-se-á: «endereço errado?»
Já enchemos praças e ruas
já invocámos dias mais justos
e as estátuas foram de carne
e de vidro os bustos
Já cantámos tantos presságios
pondo o fogo e a chuva na voz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?
Que há-de ser da longa batalha
que nos fez partir à aventura
que será que foi
quanto é quanto dura
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós
Para aqueles e aquelas que não sabem o que vai ser deles e delas. MC e AC
Sérgio Godinho
Já viajámos de ilhas em ilhas
já mordemos fruta ao relento
repartindo esperanças e mágoas
por tudo o que é vento
Já ansiámos corpos ausentes
como um rio anseia pela foz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?
Que há-de ser do mais longo beijo
que nos fez trocar de morada
dissipar-se-á como tudo em nada?
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós
Já avivámos brasas molhadas
no caudal da lágrima vã
e flutuando, a lua nos trouxe
à luz da manhã
Reencontrámos lágrimas e riso
demos tempo ao tempo veloz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós
Que há-de ser da mais longa carta
que se abriu, peito alvoroçado
devolver-se-á: «endereço errado?»
Já enchemos praças e ruas
já invocámos dias mais justos
e as estátuas foram de carne
e de vidro os bustos
Já cantámos tantos presságios
pondo o fogo e a chuva na voz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?
Que há-de ser da longa batalha
que nos fez partir à aventura
que será que foi
quanto é quanto dura
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós
Para aqueles e aquelas que não sabem o que vai ser deles e delas. MC e AC
Tuesday, May 15, 2007
Monday, May 14, 2007
Saturday, May 12, 2007

A Carlos Drummond de Andrade
João Cabral de Melo Neto*
Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo no canteiro.
Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.
Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.
Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.
Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.
*Nasceu em Recife em 1920.
João Cabral de Melo Neto*
Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo no canteiro.
Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.
Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.
Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.
Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.
*Nasceu em Recife em 1920.
Rosalía de Castro*
Nasín cando as prantas nasen
no mes des froles nasín,
nunha alborada mainiña,
nunha alborada de abril.
Por eso me chaman Rosa,
mais a do triste sorrir,
con espiñas para todos,
sin ningunha para ti.
Desque te quixen, ingrato,
todo acabóu para min
que eras ti para min todo,
miña groria e meu vivir.
De qué, pois, te queixas, Mauro?
De qué, pois te queixas, di,
cando sabes que morrera
por te contemplar felís?
Duro cravo me encravaches
con ese teu maldesir,
con este teu pedir tolo
que non sei qué quer de min,
pois dinche canto dar puden,
avariciosa de ti,
o meu corasón che mando
cunha chave para o abrir.
In Cantares Gallegos
* Nasceu em Santiago de Compostela em 1837.
Nasín cando as prantas nasen
no mes des froles nasín,
nunha alborada mainiña,
nunha alborada de abril.
Por eso me chaman Rosa,
mais a do triste sorrir,
con espiñas para todos,
sin ningunha para ti.
Desque te quixen, ingrato,
todo acabóu para min
que eras ti para min todo,
miña groria e meu vivir.
De qué, pois, te queixas, Mauro?
De qué, pois te queixas, di,
cando sabes que morrera
por te contemplar felís?
Duro cravo me encravaches
con ese teu maldesir,
con este teu pedir tolo
que non sei qué quer de min,
pois dinche canto dar puden,
avariciosa de ti,
o meu corasón che mando
cunha chave para o abrir.
In Cantares Gallegos
* Nasceu em Santiago de Compostela em 1837.
Aos amigos do IPLB que guardarei sempre comigo.
Amigo*
Procura-se um amigo.
Não precisa ser homem - basta ser humano, ter sensibilidade e ter coração.
Precisa de saber falar, de saber calar e, sobretudo, de saber ouvir.
Que goste de poesia, do alvorecer, de pássaros, do sol, da lua e do murmúrio das brisas.
Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir a falta de não ter esse grande amor.
Deve guardar segredo sem sacrificar-se. Não é imprescindível que seja em primeira mão, nem mesmo em segunda; pode já ter sido enganado (todos os amigos são enganados).
Tem de ter ressonâncias humanas; seu principal objectivo deve o de ser amigo; deve sentir a tristeza das pessoas e compreender o imenso vazio dos solitários.
Procura-se um amigo que tenha os mesmos gostos e que saiba conversar de coisas simples. Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque se tem um amigo.
Precisa-se de um amigo que, a sorrir, nos bata no ombro e creia em nós. Precisa-se de um amigo para se ter a certeza que ainda se vive...
*Autoria incerta (Vinicius de Morais? Carlos Drummond de Andrade?...)
Enviado por Fernanda Vences
Amigo*
Procura-se um amigo.
Não precisa ser homem - basta ser humano, ter sensibilidade e ter coração.
Precisa de saber falar, de saber calar e, sobretudo, de saber ouvir.
Que goste de poesia, do alvorecer, de pássaros, do sol, da lua e do murmúrio das brisas.
Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir a falta de não ter esse grande amor.
Deve guardar segredo sem sacrificar-se. Não é imprescindível que seja em primeira mão, nem mesmo em segunda; pode já ter sido enganado (todos os amigos são enganados).
Tem de ter ressonâncias humanas; seu principal objectivo deve o de ser amigo; deve sentir a tristeza das pessoas e compreender o imenso vazio dos solitários.
Procura-se um amigo que tenha os mesmos gostos e que saiba conversar de coisas simples. Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque se tem um amigo.
Precisa-se de um amigo que, a sorrir, nos bata no ombro e creia em nós. Precisa-se de um amigo para se ter a certeza que ainda se vive...
*Autoria incerta (Vinicius de Morais? Carlos Drummond de Andrade?...)
Enviado por Fernanda Vences
Thursday, May 10, 2007
Nuno Júdice
Quero dizer-te uma coisa simples:
a tua ausência dói-me.
Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma;
mas que não deixa, por isso,
de deixar alguns sinais -
um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos.
Como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto.
São estas as formas do amor,
podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples
também podem ser complicadas,
quando nos damos conta da diferença entre
o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória;
e a realidade aproxima-me de ti,
agora que os dias correm mais depressa,
e as palavras ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de mim -
e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.
Quero dizer-te uma coisa simples:
a tua ausência dói-me.
Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma;
mas que não deixa, por isso,
de deixar alguns sinais -
um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos.
Como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto.
São estas as formas do amor,
podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples
também podem ser complicadas,
quando nos damos conta da diferença entre
o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória;
e a realidade aproxima-me de ti,
agora que os dias correm mais depressa,
e as palavras ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de mim -
e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.
Maria do Rosário Pedreira
O meu mundo tem estado à tua espera; mas
não há flores nas jarras, nem velas sobre a mesa,
nem retratos escondidos no fundo das gavetas. Sei
que um poema se escreveria entre nós dois; mas
não comprei o vinho, não mudei os lençóis,
não perfumei o decote do vestido.
Se ouço falar de ti, comove-me o teu nome
(mas nem pensar em suspirá-lo ao teu ouvido);
se me dizem que vens, o corpo é uma fogueira –
estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro
com a violência de um incêndio; mas parto
antes de saber como seria. Não me perguntes
porque se mata o sol na lâmina dos dias
e o meu mundo continua à tua espera:
houve sempre coisas de esguelha nas paisagens
e amores imperfeitos – Deus tem as mãos grandes.
In O canto do vento nos ciprestes, Gótica
O meu mundo tem estado à tua espera; mas
não há flores nas jarras, nem velas sobre a mesa,
nem retratos escondidos no fundo das gavetas. Sei
que um poema se escreveria entre nós dois; mas
não comprei o vinho, não mudei os lençóis,
não perfumei o decote do vestido.
Se ouço falar de ti, comove-me o teu nome
(mas nem pensar em suspirá-lo ao teu ouvido);
se me dizem que vens, o corpo é uma fogueira –
estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro
com a violência de um incêndio; mas parto
antes de saber como seria. Não me perguntes
porque se mata o sol na lâmina dos dias
e o meu mundo continua à tua espera:
houve sempre coisas de esguelha nas paisagens
e amores imperfeitos – Deus tem as mãos grandes.
In O canto do vento nos ciprestes, Gótica
Wednesday, May 09, 2007
Maria Valupi *
Procuro a tua mão sem contornos,
Mas quente;
Os teus olhos na noite desmanchados,
Mas profundos;
A tua voz por tantos lados repartida,
Mas pura;
O teu aroma repetido em tanta flor e tanta boca,
Mas suave;
A tua boca perturbada por tanta agonia tanto riso,
Mas vermelha;
O teu sorriso desenhado em tanta face,
Mas inefável;
Os teus passos pisando a terra toda,
Mas leves;
O teu coração batendo em cada corpo,
Mas livre...
In Desprevenidas paisagens, 1959
* Maria Dulce Lupi Cohen Osório de Castro (1905-1977.
Procuro a tua mão sem contornos,
Mas quente;
Os teus olhos na noite desmanchados,
Mas profundos;
A tua voz por tantos lados repartida,
Mas pura;
O teu aroma repetido em tanta flor e tanta boca,
Mas suave;
A tua boca perturbada por tanta agonia tanto riso,
Mas vermelha;
O teu sorriso desenhado em tanta face,
Mas inefável;
Os teus passos pisando a terra toda,
Mas leves;
O teu coração batendo em cada corpo,
Mas livre...
In Desprevenidas paisagens, 1959
* Maria Dulce Lupi Cohen Osório de Castro (1905-1977.
Tuesday, May 08, 2007

Cresce o desejo, falta o sofrimento
Gregório de Matos *
Cresce o desejo, falta o sofrimento,
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.
Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.
Quem pretende alcançar, espera, e cala,
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.
Pois se aquele que espera sempre alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda esperança.
In Obras Completas de Gregório de Matos
* Nasceu na Bahia no século XVII.
Gregório de Matos *
Cresce o desejo, falta o sofrimento,
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.
Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.
Quem pretende alcançar, espera, e cala,
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.
Pois se aquele que espera sempre alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda esperança.
In Obras Completas de Gregório de Matos
* Nasceu na Bahia no século XVII.
Para a Fernanda V., no dia do seu aniversário
A uma ausência
António Barbosa Bacelar *
Sinto-me sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo, que me alenta,
O mal, que me consome, me sustenta,
O bem, que me entretém, me dá cuidado.
Ando sem me mover, falo calado,
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta.
Choro no mesmo ponto, em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do que menos se espera estou mais certo;
Mas se de confiado desconfio,
É porque entre os receios da mudança
Ando perdido em mim, como em deserto.
In Fénix Renascida (1ª ed. 1716-1728)
* Poeta barroco, século XVII
Enviado pelos ex-colegas
A uma ausência
António Barbosa Bacelar *
Sinto-me sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo, que me alenta,
O mal, que me consome, me sustenta,
O bem, que me entretém, me dá cuidado.
Ando sem me mover, falo calado,
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta.
Choro no mesmo ponto, em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do que menos se espera estou mais certo;
Mas se de confiado desconfio,
É porque entre os receios da mudança
Ando perdido em mim, como em deserto.
In Fénix Renascida (1ª ed. 1716-1728)
* Poeta barroco, século XVII
Enviado pelos ex-colegas
Thursday, May 03, 2007
Eduardo White *
Eu amo-te devagar, como profunda e iluminadamente amo este destino, porque cedo me deram a poesia, essa voz cândida, funda, pela qual empobreço escrevendo versos. Ninguém agora me perdoa tamanha loucura e dela é tarde para que me liberte e é por isso que conto estrelas e falo sozinho pelas ruas e penso bastante. Sou um faquir todos os dias sobre as lâminas perfurantes dessa realidade e os meus pés andam, no entanto, admiravelmente sobre elas e a carne arde pelas suas chagas fundas, sofre embatente contra os ossos, contra os urros, contra a vontade esgotante da poesia. Digo-te no plural e canto-te com a mesma ternura de quem deita um filho para que sonhe talvez, ou aprenda, e estou do avesso nos versos dos meus poetas preferidos, na subversão com que falam e são. Olhos meus, vertiginosos e preciosíssimos, aqueles, os teus, com panos nas asas e luzes e que por dentro me passam tilintantes. Minha taça secreta, meu cio e minha sedução que pangaios tens nos lábios, com colares e especiarias, que possam levar-me, inenarrável, aos mares que emprestas a estas mãos.
In Os materiais do amor, Caminho
*Nasceu em Quelimane, Moçambique, em 1963.
Eu amo-te devagar, como profunda e iluminadamente amo este destino, porque cedo me deram a poesia, essa voz cândida, funda, pela qual empobreço escrevendo versos. Ninguém agora me perdoa tamanha loucura e dela é tarde para que me liberte e é por isso que conto estrelas e falo sozinho pelas ruas e penso bastante. Sou um faquir todos os dias sobre as lâminas perfurantes dessa realidade e os meus pés andam, no entanto, admiravelmente sobre elas e a carne arde pelas suas chagas fundas, sofre embatente contra os ossos, contra os urros, contra a vontade esgotante da poesia. Digo-te no plural e canto-te com a mesma ternura de quem deita um filho para que sonhe talvez, ou aprenda, e estou do avesso nos versos dos meus poetas preferidos, na subversão com que falam e são. Olhos meus, vertiginosos e preciosíssimos, aqueles, os teus, com panos nas asas e luzes e que por dentro me passam tilintantes. Minha taça secreta, meu cio e minha sedução que pangaios tens nos lábios, com colares e especiarias, que possam levar-me, inenarrável, aos mares que emprestas a estas mãos.
In Os materiais do amor, Caminho
*Nasceu em Quelimane, Moçambique, em 1963.
Mãos
Àlex Susanna *
Estas carícias que trocamos
de vez em quando
mesmo antes de adormecer,
enquanto lá fora resmoneia o vento
e cá dentro tudo repousa do que é,
talvez digam mais do nosso amor
que todo o querer com que nos abraçamos
levados pelas rajadas do desejo:
um mesmo vento poderia erguer-se
em planícies mais suaves,
enquanto estas mãos,
já cautas e endurecidas,
apenas sabem passear
onde existe amor.
Tradução colectiva (Mateus, Out. 1995)
* Nasceu em Barcelona em 1957.
Àlex Susanna *
Estas carícias que trocamos
de vez em quando
mesmo antes de adormecer,
enquanto lá fora resmoneia o vento
e cá dentro tudo repousa do que é,
talvez digam mais do nosso amor
que todo o querer com que nos abraçamos
levados pelas rajadas do desejo:
um mesmo vento poderia erguer-se
em planícies mais suaves,
enquanto estas mãos,
já cautas e endurecidas,
apenas sabem passear
onde existe amor.
Tradução colectiva (Mateus, Out. 1995)
* Nasceu em Barcelona em 1957.
Monday, April 30, 2007
Mário Castrim
As Batatas
As batatas estão em flor
no palmo
de luz secreta.
Ninguém pode tirar
à batata
o direito a ser poeta.
Mário Castrim
Administra bem o teu jardim
Administra bem o teu jardim.
Passam alto os crisântemos.
Os astros
andam tão baixo às vezes
que
se não acordamos
apodrecem nos ramos.
Administra bem o teu jardim.
Pedra
sombra
giestas
gestos
mastros
solo.
Administra bem o teu jardim.
Poemas enviados por Ana C.
As Batatas
As batatas estão em flor
no palmo
de luz secreta.
Ninguém pode tirar
à batata
o direito a ser poeta.
Mário Castrim
Administra bem o teu jardim
Administra bem o teu jardim.
Passam alto os crisântemos.
Os astros
andam tão baixo às vezes
que
se não acordamos
apodrecem nos ramos.
Administra bem o teu jardim.
Pedra
sombra
giestas
gestos
mastros
solo.
Administra bem o teu jardim.
Poemas enviados por Ana C.
O mosquito escreve
Cecília Meireles
O mosquito pernilongo
trança as pernas, faz um M,
depois, treme, treme, treme,
faz um O bastante oblongo,
faz um S. O mosquito sobe e desce.
Com artes que ninguém vê,
faz um Q,
faz um U, e faz um I.
Este mosquito
esquisito
cruza as patas, faz um T.
E aí,
se arredonda e faz outro O,
mais bonito.
Oh!
Já não é analfabeto,
esse insecto,
pois sabe escrever seu nome.
Mas depois vai procurar
alguém que possa picar,
pois escrever cansa,
não é, criança?
E ele está com muita fome.
Enviado por Teodora Gonçalves.
Dedicado a todos os meninos e meninas que estão a aprender a ler e a escrever.
Cecília Meireles
O mosquito pernilongo
trança as pernas, faz um M,
depois, treme, treme, treme,
faz um O bastante oblongo,
faz um S. O mosquito sobe e desce.
Com artes que ninguém vê,
faz um Q,
faz um U, e faz um I.
Este mosquito
esquisito
cruza as patas, faz um T.
E aí,
se arredonda e faz outro O,
mais bonito.
Oh!
Já não é analfabeto,
esse insecto,
pois sabe escrever seu nome.
Mas depois vai procurar
alguém que possa picar,
pois escrever cansa,
não é, criança?
E ele está com muita fome.
Enviado por Teodora Gonçalves.
Dedicado a todos os meninos e meninas que estão a aprender a ler e a escrever.
Friday, April 27, 2007
Muitas coisas
António Osório *
Não é uma coisa só.
São muitas coisas nuas.
Não é o desabar de uma casa.
É percorrer os seus escombros.
Não é aguardar por um filho.
É voltar a sê-lo.
Não é penetrar em ti.
É sair de mim.
Não é pedir-te que faças.
É fazer-te.
Não é dormir lado a lado.
É estar jacente de mãos dadas.
Não é ouvir vento e chuva.
É franquear-lhes a cama.
E relâmpago que pela terra se funde.
*Nasceu em Setúbal, em 1933.
http://www.iplb.pt/pls/diplb/!get_page?pageid=402&tpcontent=FA&idaut=1426036&idobra=&format=NP405&lang=PT
António Osório *
Não é uma coisa só.
São muitas coisas nuas.
Não é o desabar de uma casa.
É percorrer os seus escombros.
Não é aguardar por um filho.
É voltar a sê-lo.
Não é penetrar em ti.
É sair de mim.
Não é pedir-te que faças.
É fazer-te.
Não é dormir lado a lado.
É estar jacente de mãos dadas.
Não é ouvir vento e chuva.
É franquear-lhes a cama.
E relâmpago que pela terra se funde.
*Nasceu em Setúbal, em 1933.
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