Friday, March 23, 2007

Fernando Pessoa

Ai que prazer
Não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura

O rio corre,
bem ou mal
Sem edição original.

E a brisa essa.
De tão naturalmente matinal.
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa que está indistinta
A distinção entre coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma
Esperar por D. Sebastião.
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças.
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
é Jesus Cristo.
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca.

Enviado por Lurdes Machado


É urgente o amor
Eugénio de Andrade

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Enviado por Catarina Beleza e por Teresa Castro

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