Carlos de Oliveira
Aceito a ordem
Das coisas, a geometria
Imposta do quarto?
Os objectos no
Seu lugar de sempre,
A distância exacta
Da cadeira à mesa,
Do meiple à janela?
O sono do tapete?
O universo do diário
Do quarto alugado,
As molduras que
Cercam, resguardam
Naturezas mortas,
Paisagens imóveis?
Aceito a minha vida?
Ou mexo no candeeiro,
Desvio-o alguns centímetros
Na mesa, altero
As relações das coisas,
Afinal tão frágeis
Que o simples desvio
Dum objecto pode
Romper o equilíbrio?
Pego no telefone
E grito ao primeiro
Desconhecido: ouves-me?
Ou deixo tudo
Tal como está,
Medido, quieto
No rigor do quarto,
E eu hesitante
Entre o soalho e o tecto?
Desloco o cinzeiro
Sabendo que posso
Matar mandarins,
Provocar cataclismos,
Fracturas, amores,
Eclipses, sonhos,
Com a ponta de um dedo?
Ou apago a lâmpada
Eléctrica e entro
No mesmo torpor
Que as flores do tapete,
A fruta dos quadros,
O frio, o bolor,
No chão, nas paredes,
O poema na mesa,
A mesa no espaço
Do quarto comprado
Mês a mês? Confundo
O aluguer e o tempo,
Deixo-me ser
Em cada milímetro,
Em cada segundo,
Do quarto, da vida,
O outro objecto
Chamado inquilino?
Ou desencadeio
A insurreição
Mudando de sítio
O meiple, a cadeira,
Mudando-me a mim?
O Aprendiz de Feiticeiro
(Ao amigo Manuel Gusmão, para que não fique sem pergunta)
enviado por José Alvim
Friday, March 23, 2007
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