Wednesday, July 25, 2007

Canção de embalar
Paulo Teixeira

No teu passo suave e quase alado
deixaste-me com a tua voz que tece
em solidão e madrugadas o meu estar,

tu, que acaso em voo desatado
vais sem medo além da dor
da carne em sangue a deslaçar-se,

dá-me a tua mão para ninar a noite
com palavras ternas e secretas
que encantam o silêncio povoado

por novas dum espaço que em vida
se medita, com suas paisagens
que se alargam no olvido arborizadas,

diz-me que sonho trará de volta
tua alma e corpo intactos
por mais que ardam os fogos na noite,

corram a lua e os astros todos
desfraldados em palidez numa demanda
tua, noite cega com o dia agrilhoado

na cintura, noite em que não vens
com teu passo suave e alado
aninhar no meu o teu corpo,

enseada desenhando-se na penumbra,
molhar com uma palavra os lábios
onde outra dos nossos nomes nascia

(olhar-te nos olhos de um azul
como só há no céu pelas manhãs
claras de querer-te muito),

mais que neve ou a espuma das ondas
a marulhar em nossas bocas,
quando todo tu eras beijo demorado

e a face iluminava-se num convite
à partida para o longe que nunca nos doía,
ambas as mãos no volante pousadas,

porque desamado fui eu em tua dor,
canta para embalares com a tua guitarra
a noite e o sono irreparáveis.

In Autobiografia Cautelar, Gótica, 2001


Para a Ana.

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