Thursday, May 03, 2007

Eduardo White *

Eu amo-te devagar, como profunda e iluminadamente amo este destino, porque cedo me deram a poesia, essa voz cândida, funda, pela qual empobreço escrevendo versos. Ninguém agora me perdoa tamanha loucura e dela é tarde para que me liberte e é por isso que conto estrelas e falo sozinho pelas ruas e penso bastante. Sou um faquir todos os dias sobre as lâminas perfurantes dessa realidade e os meus pés andam, no entanto, admiravelmente sobre elas e a carne arde pelas suas chagas fundas, sofre embatente contra os ossos, contra os urros, contra a vontade esgotante da poesia. Digo-te no plural e canto-te com a mesma ternura de quem deita um filho para que sonhe talvez, ou aprenda, e estou do avesso nos versos dos meus poetas preferidos, na subversão com que falam e são. Olhos meus, vertiginosos e preciosíssimos, aqueles, os teus, com panos nas asas e luzes e que por dentro me passam tilintantes. Minha taça secreta, meu cio e minha sedução que pangaios tens nos lábios, com colares e especiarias, que possam levar-me, inenarrável, aos mares que emprestas a estas mãos.

In Os materiais do amor, Caminho

*Nasceu em Quelimane, Moçambique, em 1963.

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