Monday, April 02, 2007

Teus olhos
Florbela Espanca

Olhos do meu amor! infantes loiros
que trazem os meus preso, endoidados!
neles deixei, um dia, os meus tesoiros
meus anéis, minhas rendas, meus brocados.

neles ficaram meus palácios moiros,
meus carros de combate, destroçados,
os meus diamantes, todos os meus oiros
que trouxe d'Além-Mundos ignorados!

Olhos do meu amor! fontes... cisternas...
Enigmáticas campas medievais...
jardins de Espanha... catedrais eternas...

Berço vindo do Céu à minha porta...
ó meu leito de núpcias irreais!...
meu sumptuoso túmulo de morte!...

Enviado por Joana Patricia Fonseca Rodrigues -11 anos


Canto Nono
Tonino Guerra

Terá chovido durante cem dias e a água infiltrada
pelas raízes das ervas
chegou à biblioteca banhando as palavras santas
guardadas no convento.

Quando tornou o bom tempo,
Sajat-Novà o frade mais jovem
levou os livros todos por uma escada até ao telhado
e abriu-os ao sol para que o ar quente
enxugasse o papel molhado.

Um mês de boa estação passou
e o frade de joelhos no claustro
esperava dos livros um sinal de vida.
Uma manhã finalmente as páginas começaram
a ondular ligeiras no sopro do vento
parecia que tinha chegado um enxame aos telhados
e ele chorava porque os livros falavam.


Adília Lopes

Seca-se o livro
no alto do ulmeiro
o anacronismo
produziu o surrealismo
mas não é só
uma má tradução
o livro caiu ao mar
foi preciso enxugar o livro
agora o vento abana
as folhas do ulmeiro
e as do livro
(as folhas batem
umas nas outras)
e o livro é um fruto
é um produto
do ulmeiro
acham que um verso
é pouco?
quem não o aproveita
é mouco


Adília Lopes

Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito dos seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever

Enviados por Helena Laranjeiro


Maria Lúcia Carvalhas

Da cartola surge um coelho,

Vou ao outro lado do espelho,
Tenho uma arca de surpresas,
Faço truques com as luzes acesas.
Com as cartas sou um às,
Agora tu! Vê se és capaz...

Joana Sofia Correia Paiva - 12 anos

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